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Parintins
ARTISTA VISCERAL

'Nunca me emocionei com um trabalho meu', dispara o compositor Paulinho Dú Sagrado

Compositor de muitos sucessos do Garantido fala sobre as toadas assinadas em 2018 e sua autocrítica na hora de criar 29/06/2018 às 14:03 - Atualizado em 30/06/2018 às 10:55
Show paulinho
Paulinho Dú Sagrado durante passagem pela redação no Bumbódromo do jornal e portal A Crítica. Foto: Antonio Lima
Rafael Seixas Parintins (AM)

O artista precisa ter comprometimento com a arte que faz. E isso Paulinho Dú Sagrado, um dos grandes compositores do Boi Garantido, tem de sobra. Sua autocrítica está sempre no campo. É um diálogo mental constante para fazer poesia cantada e ajudar a manter vivo o boi-bumbá de Parintins – mesmo que, às vezes, não concorde com certos caminhos tomados pela agremiação vermelha e branca. Este ano, o parintinense assina três toadas do espetáculo intitulado “Auto da Resistência Cultural”, a lenda “O Sonho de Kanypaye-RO”; a homenagem “Estandarte da Baixa” e a impactante “Consciência Negra”. Mesmo com o prestígio conquistado há anos, ele afirma: "Nunca me emocionei com um trabalho meu".

Sem pudor de dividir o que pensa, Paulinho pode até ser visto em certos momentos como polêmico, mas não falta propriedade e segurança no que diz. E desse “casamento”, com momentos altos e baixos [o que é natural], nasceram composições como “Povo de Alma Vermelha”, “No Compasso da Emoção”, “A Vida em Vermelho”, “O Pescador”, “Cores da Paixão”, “Encontro dos Povos”, “Lágrimas do Sol” e muitas outras.  O processo de composição é árduo, é uma lapidação para chegar o mais próximo da perfeição. 

“Eu sou o tipo de compositor que luto para manter o padrão de qualidade porque isso mantém o nível de respeito. Tem uma reciprocidade entre o artista e as pessoas que gostam do meu trabalho. Então quando procuro fazer um trabalho, é um desafio. Tenho que fazer uma consulta na minha autocrítica, um diálogo com ela, um confronto, mas, depois desse desafio, o ponto principal é a própria consciência. Antes de expor um trabalho para uma análise crítica, você tem que ter consciência daquilo que produziu”, explica o compositor, que desde 1971 brinca no Garantido, época que, segundo o próprio, o boi era de Lindolfo Monteverde.

Autocrítico, um artista

Muito comentada pelos torcedores da Baixa do São José, a toada “Consciência Negra” conquistou os corações avermelhados. Mas Paulinho não gosta de criar grandes expectativas com o conteúdo apresentado na Arena do Bumbódromo. A explicação é a autocrítica.

“Nunca me emocionei com um trabalho meu. Porque, para as coisas chegarem até mim, elas devem transcender o limite do muito bom. Eu vou dar um exemplo: ‘Pandré’ foi uma das melhores composições que já fiz para o boi, mas não vi o resultado que esperava. Hoje [na última quinta-feira] estava comentando com um amigo que espero não ter a mesma sensação, como já tive em anos anteriores, de estar dentro do Bumbódromo e me sentir escalando uma montanha de cabeça para baixo, sob o efeito de chá de cogumelo. É aquela coisa que você não compreende”.

Ao menos dessa vez, ele ficou feliz de saber que a sua toada “O Sonho de Kanypaye-RO” será retratada alegoricamente pelo artista Oséas Bentes, que retornou neste ano ao Garantido após 20 anos atuando no Caprichoso. “Poucas vezes vi o artista conceber a ideia do compositor. Estou torcendo muito pelo Oséas. Ele não gosta de aparecer, mas é um cara funcional. Torço pelo trabalho dele e de todos os artistas do Garantido e do Caprichoso. Espero que todos tenham seu trabalho executado de forma digna dentro do festival”.

Duas de 2018

Sobre “Consciência Negra”, ele explica que a obra coloca o negro dentro de uma linha onde é possível observar tudo aquilo que conseguiram conquistar por puro mérito. “Essa é uma toada da qual tem um discurso abolicionista moderno com disposição para eliminar o escravagismo pífio da mente obscura do preconceito. Esse foi o ponto de partida, eu vejo por universo. (...) A figura do negro, enquanto ser humano, está acima de qualquer norma escrita. Quando vejo nesse trabalho a importância dele [negro] acima de tudo. Eu vejo que os negros, tanto na arte da música, do cinema, do futebol, sempre tiveram em ascensão. A ideia parte do princípio de valorizar e conscientizar a humanidade que não existe outras raças. No meu ponto de vista existe uma única raça que é a humana”.

Ao discorrer sobre “Estandarte da Baixa” é possível observar o carinho que o compositor tem por Edilene Tavares, a nova Porta-Estandarte do Garantido, que ano passado foi convocada às pressas para substituir Nabila Barbosa que, por sua vez, foi a substituta de Daniele Tapajós, a Porta-Estandarte oficial de 2017.

“‘Estandarte da Baixa’ é um poema escrito. Edilene surgiu no momento importante da necessidade de se ter uma Porta-Estandarte. O lugar dela estava reservado. A letra da música conta a história dela”, explicou Paulinho. Mas não pense que a composição é voltada ao item em si – algumas pessoas fazem essa associação. “Essa toada é específica não ao item, mas para a pessoa da Edilene. A frase mais forte da toada é: ‘Teu movimento Garantido é show/ Teu estandarte representa o nosso amor/ Poema da arte cabocla que a Baixa guardou’. Edilene é o estandarte. Ela estava lá, só precisava de uma oportunidade. Antes do item vem a pessoa”.

Apesar de acreditar que o compositor não tem o reconhecimento merecido dentro do boi e que muitas situações precisam ser repensadas, afinal o espetáculo não existe sem a contribuição intelectual do compositor, Paulinho reafirma seu amor à figura do boi-bumbá Garantido – que para ele é intocável. “Isso aqui vai continuar sendo a minha fonte inesgotável de inspiração. Sou conhecido hoje artisticamente graças ao boi. A associação folclórica é outra história”.

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