Domingo, 09 de Agosto de 2020
DATAS

O reencontro com a tradição do Festival: 28, 29 e 30 outra vez!

Festival de Parintins acontecia sempre nos três últimos dias de junho até 2004, quando lei municipal promoveu alteração; este ano, a festa acontece nas datas 'originais'



TRADICAO__5__C34322B9-02E3-471A-80A7-7A19ABC9736D.jpg (Foto: Jair Araújo)
23/06/2019 às 12:21

“É 28, 29 e 30 / É 30, 29 e 28”. A imortal e dançante toada bovina do Boi Caprichoso, de autoria do compositor Raimundinho Dutra, que caracterizava os antigos dias tradicionais de apresentação do Festival Folclórico de Parintins, nos lembra de um tempo onde a disputa dos bois Garantido e Caprichoso tinha data certa em junho. Mas, a partir de 2005 o evento, por determinação de uma lei municipal, mudou para o último final de semana do mesmo mês visando facilitar a vinda de mais turistas para a festividade.

Na época, aos tradicionalistas a novidade causou polêmica, mas aos poucos foi sendo assimilada até cair definitivamente nas graças do povo. Este ano, por coincidência do destino, os holofotes voltam-se para a direção dos dias 28, 29 e 30, que voltam a receber o espetáculo no Bumbódromo.



O último ano de disputa do Festival na tradicional data, 2004, na 29ª edição, foi marcado pela vitória do Boi Garantido, que trouxe para a Arena do Bumbódromo o tema “Amazônia, Coração Brasileiro”.

Naquele ano, além dos bumbás, o centro das atenções foi o ator global Marcos Frota, que era um dos jurados da apresentação em 28 de junho daquele ano, mas que acabou causando polêmica após ter se apresentado como ritmista na Marujada do Boi Caprichoso, e depois ter tentado fazer o mesmo no Garantido – mas depois “convidado” a se retirar da arena. Como é exigência que os jurados não manifestem suas preferências “bovinas” e julguem com imparcialidade, em face dessa polêmica os organizadores do Festival Folclórico decidiram por anular as notas de todos os jurados do primeiro dia.

Segundo entrevistas de Marcos Frota à época, ele desconhecia que “sair em um dos grupos causaria divergências”. Sua inclusão ocorreu após uma prática comum entre as associações folclóricas Garantido e Caprichoso: o impasse entre as diretorias que não chegavam a um acordo para escolher os Estados e nomes dos jurados.

Opiniões

A parintinense Rosa Siderval, 58, é presidente da dança folclórica  Pastorinhas de Parintins, que celebra o nascimento do Menino Jesus,  conta que, ao final das contas, a mudança foi acertada. “No começo pensou-se que não iria dar certo, pois saiu da data e não sei mais o quê. Mas, veja bem: a data coincide com o final de semana, e, para quem trabalha, pode vir pelo menos uma noite ao Festival. E nos outros caía no meio da semana e a pessoa não podia deixar o seu trabalho porquê iria perder dias no serviço. Eu gostei da mudança, pois foi acertada e o povo vem. Foi muito bom. Se você perde uma sexta-feira, na segudna você vai estar no trabalho. E no meio da semana, que caía às vezes, não coincidia e muitas pessoas que gostam do Festival não vinham”, conta ela.

Proprietária de um mini-restaurante no cruzamento das ruas Paraíba com Icurapá, bairro de São Francisco, em Parintins, ela foi brincante no Garantido, nos templos em que a brincadeira era no tabladão do estádio Tupy Cantanhede. “Eu ia de vermelho e branco com os meus pais Marina e Jose Siderval, lá pro tabladão, e sempre levava uma palminha (instrumento de madeira que, em atrito, gera som estridente e característico). Mas tive meus filhos e era difícil ir com crianças. Mas acho a festa muito bonita e ao artistas merecedores de mais valorização. Aqui é terra de artistas, mas eles precisam ser mais valorizados. Faço parte da cultura de Parintins, sou Garantido, mas gosto do Caprichoso, pois os dois bois fazem a festa”, declara ela que, nos dias do Festival Folclórico de Parintins vende tacacá e outros alimentos.

Sem diferença

O 28, 29 e 30 é uma tradição que hoje não faz tanta diferença, analisa o jornalista Floriano Lins, um mais experientes e profundo conhecedor do Festival de Parintins.

“Estamos muito alheios a isso porque não há o protagonismo da comunidade. O que há é o que faz bem para as empresas aéreas, para as empresas que vendem cervejas e refrigerantes, etc. Estamos sempre a reboque da busca de lucros”, disse ele, graduado em Letras e Jornalismo, ativista integrante da entidade Articulação Parintins Cidadã junto com sua esposa, a educadora popular e professora Fátima Guedes, editor do impresso semanal “Plantão Popular” e defensor do meio ambiente com a Teia de Educação Ambiental e Interação em Agroecologia (grupo de pessoas que semeam a educação ambiental e principalmente o foco de defesa do meio ambiente equilibrado).  

Com 45 anos de experiência no jornalismo, Floriano relembra ser do tempo em que fotografava com filme negativo, “corria para uma área escura e cortava um pedaço do filme, e o colocava dentro de um envelope junto com o texto escrito pedindo pelo amor de Deus que o piloto levasse para Manaus”. Naquela época, conta “Floripa”, como é carinhosamente chamado, “era uma festa quando saía três, quatro linhas do Festival de Parintins nos jornais de Manaus”.

Segundo ele, antigamente a festa era mais tradição, e “alcançou-se uma efervescência cultural muito mais parintinense” mas, desde que o Festival foi transformado em indústria cultural, diz o jornalista, “começamos a viver uma defasagem principalmente em relação à comunidade local”.

O artista plástico Jair Mendes é um dos que defendem o retorno da apresentação para as datas definitivas de 28, 29 e 30. “O dia tradicional era esse. Eu gostaria que voltasse para essa data, que eram dias sagrados”, comenta.

“Aquele 28, 29 e 30 era tradição, e tem até toadas, já aguardávamos essa data”, recorda o ex-apresentador Paulinho Faria. 

Repórter de A Crítica

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