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Parintins
SINCRETISMO

Povo da Ilha Tupinambarana e a fusão do sangue folclórico com a fé na padroeira

Habitantes da Ilha Tupinambarana demonstram sua fé por Nossa Senhora do Carmo num elo que a cada ano fica mais forte e que divide as atenções com o Festival de Parintins 25/06/2018 às 20:58 - Atualizado em 26/06/2018 às 09:08
Show santa
A auxiliar de serviços gerais Valcinéia Andrade Castro, 43, conta que seus sobrinhos providenciam todos os anos uma imagem de Nossa Senhora do Carmo para ser exposta na casa / Fotos: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Parintins (AM)

O parintinense tem a religiosidade à flor da pele com a reverência à Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, num elo que a cada ano fica mais forte e que, por vezes, divide as atenções com o Festival Folclórico dos bois Caprichoso e Garantido. Os festejos da santa acontecem de 6 a 16 de julho, com a fé tendo contornos curiosos na Ilha Tupinambarana, seja no padre que apóia a manifestação cultural bovina, seja nos milhares de fiéis devotos da Santa do Carmelo que querem pedir graças ou agradecer um pedido alcançado.

Minelvina Ferreira Muniz, 81, é devota de Nossa Senhora do Carmo e se considera “muito católica”. Há cerca de um mês ela não vai à Catedral, devido um problema de saúde que teve, mas não esquece de fazer suas preces e seu terço em um minialtar na entrada de sua casa, na avenida Nações Unidas.

“Sou muito católica, faço meu terço e não paro de rezar. Essa fé que me sustenta graças a Deus. Hoje me sinto bem, pois há alguns meses não ‘saía a minha voz’”, declara ela, mãe de 13 filhos (três já falecidos), mais de 40 netos e um número incerto de bisnetos.

Uma das graças alcançadas por Minelvina junto à Nossa Senhora do Carmo foi o restabelecimento de uma de suas netas, de 2 anos e 4 meses de idade,que foi diagnosticada com pneumonia. “Me peguei com Nossa Senhora do Carmo e disse que se ela quisesse que minha neta saísse vestida de anjo no dia da procissão, que ela desse a saúde dela. Ela melhorou e vamos vestir ela de anjinho”, garante ela, confirmando presença dela e da neta na tradicional procissão do próximo dia 16 de julho.

Minelvina reza diariamente um terço para Nossa Senhora Aparecida, “pedindo bênçãos para o nosso Brasil, além de um para o Pai Eterno e outro para Nossa Senhora e para Jesus agradecendo pelo dia e noite do alimento”.

Para ela, a fé em Nossa Senhora do Carmo representa muito. “Ela representa a melhora na minha vida, e tenho uma fé nela que deixa muito feliz meu coração. Peço para a Santa me livrar de todo mal, de toda maldade que existe. Tomar conta dos meus filhos. Ela representa Nossa padroeira e só nos faz coisas boas”, conta a octagenária, viúva há quatro anos de Joaquim Bezerra, com quem viveu 60 anos.  

Vigário

O padre Jânio Moura de Negreiros, 29, vigário paroquial de Nossa Senhora do Carmo, comentou sobre a religiosidade do povo parintinense.

“O povo de Parintins se construiu neste ambiente de fé. Aqui se desenvolveu muito com os padres missionários do Pime (Pontifício Instituto das Missões Exteriores no Brasil), mais diretamente com a criação da Prelazia e depois Diocese e isso desenvolveu muito em se tratando de devoção também popular como é conhecida na nossa região, e pelo fato de se desenvolver muito as congregações Mariano e Apostolado da Oração que incentivavam muito essas devoções. Isso animou a vida das nossas comunidades e como a cidade de Parintins foi crescendo, também com pessoas de fora, mas muitos ribeirinhos, elas trazem essa raiz.  Essa devoção a Nossa Senhora cresceu muito nos últimos anos, dentro dessa  devoção, produto da festa daqui, e também a expressão cultura dos bumbás apresenta um sentido religioso, seja católico, onde é apresentado Nossa Senhora, São José, outros históricos santos, mas também trazem os sentidos rituais das tribos. Nós somos descendentes das tribos e temos esse aspecto do ritual. Isso ajuda para que a vivência da fé também possa ser manifestada nesse período de uma forma muito consistente pelo nosso povo de Parintins”, analisa o religioso, que é torcedor do Caprichoso e, antes de ser religioso, acompanhava os ensaios do “Touro Negro” nas férias.

Sobre o fato de Garantido e Caprichoso apresentarem toadas em homenagem à padroeira, padre Jânio contou que “Sempre os bumbás apresentam essa saudação à Nossa Senhora e durante o ano fazem as suas manifestações. Como a população é muito devota à Nossa Senhora os torcedores dos bumbás têm esse sentido de trazer os seus bois para saudar. É a arte, cultura que se está saudando o aspecto religioso”.

‘Avenida da Fé’

Os festejos de Nossa Senhora do Carmo em Parintins começam com o tradicional Círio, realizado no dia 6 de julho com saída às 18h da Igreja de São José Operário em direção à Catedral percorrendo algumas das principais vias da cidade. Uma das passagens é a avenida Senador Álvaro Maia, que há cerca de 20 anos passou a ser conhecida como “Avenida da Fé” numa denominação dada pelo radialista da Rádio Clube de Parintins, Mário Silva, já-falecido.

O motivo é bem lógico: seus moradores ornamentam a via com motivos sacros, produzem imagens gigantescas de Nossa Senhora Mãe de Jesus e de Nossa Senhora do Carmo, fazem altares em frente às suas residências para colocar a imagem da santa parintinense .   

“Este ano vamos inovar colocando,também, símbolos religiosos e desenhos na rua”, conta o autônomo Ofranildo Lima, 40. Para ele, essa é a demonstração da fé cabocla. “Muitos já foram agraciados por Nossa Senhora do Carmo, e continuamos. Muitas vezes pedimos a ela. Eu mesmo pedi pra santa pelo restabelecimento da saúde da minha mãe que sofria de depressão. Hoje ela está muito melhor. Não está curada totalmente, mas já melhorou”, destaca.

A auxiliar de serviços gerais Valcinéia Andrade Castro, 43, conta que seus sobrinhos providenciam todos os anos uma imagem de Nossa Senhora do Carmo para ser exposta na casa e as sobrinhas vão se vestir de anjos. Assim como no ano passado, ela vai homenagear a filha adolescente falecida Ana Flávia exibindo um banner com a foto e o nome dela.

Segundo Valcinéia, foi a fé que lhe deu forças para suportar a ausência da filha. “Deus precisou e minha filha foi embora. A gente tem que ter muita fé. Sou devota, creio em Nossa Senhora do Carmo. Não sou de ir sempre na Catedral, mas é sempre bom ir às vezes, como aos domingos, para rezar”, declara.  “Já estou na expectativa para ornamentar a rua, cortar os papéis,colar as bandeirinhas, etc. E ainda vamos fazer um café da manhã e um sopão para quem participa   

Os moradores estão arrecadando dinheiro para ornamentar a “Avenida da Fé” e fazer o café da manhã e o sopão para o dia 6 de julho. Se você quer colaborar com a “Avenida da Fé” pode entrar em contato com alguns deles nos fones celulares 99412-5144 (Ofranildo Lima), 99136-9946 (Valcinéia Castro),  99244-3539 (Michel Andrade) e 99384-3491 (Rener Barbosa).  Toda ajuda é bem vinda.

Nossa Senhora do Monte Carmelo

Nossa Senhora do Carmo também é chamada de Nossa Senhora do Monte Carmelo por conta do título dado à Maria, mãe de Jesus, devido sua função como padroeira da Ordem Carmelita.  Segundo historiadores, os primeiros carmelitas eram eremitas que viviam no Monte Carmelo, uma montanha na costa de Israel com vistas para o Mar Mediterrâneo, entre o final do século 12 e meados do século 13. Eles construíram, no meio de seus eremitérios, uma capela em homenagem à Santíssima Virgem.

Desde o século 15, a devoção popular a Nossa Senhora do Carmo está centrada em seu escapulário marrom, um sacramental associado às promessas de ajuda feitas por Maria para a salvação do devoto portador. Segundo a tradição, Maria entregou o escapulário a um carmelita chamado Simão Stock.

Horários da missa

Normalmente, há missas diárias na Catedral de Nossa Senhora do Carmo às 6h e 18h, e nas segundas, terças e quintas  também às 19h30. Neste período de Festival Folclórico as celebrações mudam de horário para 8h, 12h e 18h (a missa de 12h é dedicada aos turistas, lembra o vigário Jânio Moura).

Vigário destaca ritual dos bois Caprichoso e Garantido

Para alguns o boi-bumbá é considerado profano por, principalmente, manifestar elementos ritualísticos, monstros colossais e outros fatores. O vigário paroquial de Nossa Senhora do Carmo, Jânio Moura de Negreiros, faz questão de dizer que os bois Garantido e Caprichoso fazem arte, e não uma profanação.

“Vemos o Festival não como algo tão profano e longe da nossa realidade e contexto. O que percebemos da parte da religiosidade que os bumbás também representam é que bumbá é rito, é ritual, e essa ligação da cultura e fé tem uma boa relação. O que às torna profano e prejudica a dimensão do Festival é o que acontece ao redor, mas o que os bumbás apresentam, não.  É um espetáculo cultural da fé do povo, da expressão do povo parintinense. Por isso que eu destaco tanto a fé tribal quanto religiosa da Igreja Católica que é manifestada claramente pelos bumbás e mostrado, assim, pelos nossos artistas da cidade”, comentou o vigário paroquial.

Após o Festival, a cidade volta suas atenções para os festejos de Nossa Senhora do Carmo, com eventos de 6 a 16 de julho. O tema deste ano é “Maria Mãe da Igreja”.

No evento, juntos, os artistas de Garantido e Caprichoso deixam a rivalidade de lado e únem forças com seus artistas para ornamentar o adorno da Santa para o dia 16, data da procissão, por exemplo. “A festa de Nossa Senhora do Carmo junta os nossos artistas, dos dois bumbás, para organizar e preparar o andor. E eles também participam do nosso arraial, mediante sorteios para apresentação no palco da festa”, explica o religioso. 

“No sentido do mundo todo a Igreja está vivenciando o Sínodo que está voltado para a juventude, e também a nossa Igreja no Brasil está vivenciando o Ano do Laicato. Vamos refletir muito em torno dessas duas temáticas por isso nosso tema traz ‘Maria Mãe da Igreja’. É a saída que o nosso papa Francisco nos ajuda a refletir, a colocar em prática uma Igreja que se abre à diversidade, a um encontro das famílias nas suas periferias, nas suas realidades. E o lema ‘Sal da Terra e Luz do Mundo’ que é o Lema do Ano do Laicato, que traz para nós o sentido de ser um sinal de Deus na vida das pessoas, ser esse sabor do Evangelho, ser essa luz de Cristo para os irmãos e irmãs”, disse ele.   

Parintins teve a 1ª igreja para Nossa Senhora do Carmo em 1806

Antes da tradicional e imponente Catedral, com seus 42 metros de altura e 176 degraus, o parintinense reverenciava Nossa Senhora do Carmo em uma igreja construída em 1806 e que ficava localizada na Praça do Cristo Redentos, pelo frei carmelita José A. das Chagas.

Em 1905, passou a ser denominada de Igreja de São Benedito e demolida na gestão do superintendente local conhecido como Capitão Sarmento: nessa época a imagem de Nossa Senhora do Carmo já havia sido transferida para uma igreja construída na Praça Sagrado Coração de Jesus desde 1895 e que levou o nome da padroeira até 1962.

Em 6 de abril de 1958, o ex-bispo de Parintins, dom Arcângelo Cérqua, começou uma campanha para a edificação da Catedral. A construção iniciou em 1961, com a obra tendo sido assinada pelo engenheiro italiano Giovanni Butori. Sua torre foi concluída em 1981, com assinatura do engenheiro José Ribeiro e orientação do engenheiro parintinense Simão Assayag. No seu topo está a imagem da padroeira Nossa Senhora do Carmo, como a olhar para todos os parintinenses e visitantes que suplicam pela sua ajuda e milagres.

Vigário Jânio falou sobre a imponência da Catedral, de arquitetura muito elogiada. “Nossa Catedral está com seus 60 anos e ela foi projetada no período de dom Arcângelo Cérqua e ela é imponente pelo seu tamanho de ser, então ela tem essa arquitetura que é cartão-postal de Parintins, a visão aérea que se tem, o prédio que se destaca é o da Catedral. Temos essa grande reverência a esta igreja mãe de toda a região do Baixo Amazonas, onde se manifesta a maior festa religiosa do Baixo Amazonas, a festa de Nossa Senhora do Carmo”, disse o vigário, que está há sete meses na paróquia da Santa de Parintins e é oriundo do Município de Boa Vista do Ramos (a 268 quilômetros de Manaus).

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