Domingo, 09 de Agosto de 2020
Resumo

Primeira noite do Boi Caprichoso apresenta o tema 'Do Caos À Utopia'

Apresentação do Touro Negro é a segunda da noite do Festival Folclórico de Parintins e começa às 23h15 desta sexta (28)



WhatsApp_Image_2019-06-27_at_20.37.15_DB682072-8B69-47FC-9DDB-7DB41BFD8265.jpeg Foto: Jair Araújo
28/06/2019 às 15:18

A deusa índia que dá origem ao mundo vai abrir a primeira noite de apresentações do boi Caprichoso no 54º Festival Folclórico de Parintins, que tem início hoje (28). O bumbá azulado é o segundo a entrar na arena do Bumbódromo, a partir das 23h15. Sob o tema "Um Canto de Esperança Para Mátria Brasilis", a primeira noite aborda o nascimento do universo por meio do ventre da terra - a mátria que une a nação - e todo o obscurantismo das lutas sendo superada pela utopia que liberta e ilumina o que antes estava denso e nebuloso.

A primeira noite foi batizada com o subtema "Mátria Brasilis: do Caos a Utopia". A alegoria que abrirá o espetáculo é "Yêba, A Deusa Brasilis", confeccionada pelo artista Lenilson Bentes. A estrutura fala sobre a história de Yêba, considerada a avó do mundo conforme a tradição Dessana. A divindade indígena, conforme a lenda, projetou o mundo em sua imaginação como um balão responsável  por iluminar seus aposentos, chamado Umukoií (Maloca do Universo).



Após criar o universo em forma de balão, apenas com o auxílio de um cigarro, farinha de tapioca e cuias de ipadú, Yêba criou Emekosurãpanami, o "neto do mundo". A terra também foi criada por Yêba, que a fertilizou com seu próprio corpo, e logo depois foram criados os cinco elementos (ar, terra, fogo, água e eter). Tudo isso, em uma grande fusão, depositou no mundo as belezas naturais existentes nele.

Tempos depois, o neto do mundo e Umokomahsu-Borek, o primeiro pajé Dessana, mergulham em uma viagem que acontece por cima de um rio de leite, em uma grande cobra canoa. Um cetro invisível misterioso transforma as riquezas naturais em gente, e tudo isso é descoberto Emekosurãpanami e Umokomahsu-Borek, em casas localizadas nas dependências deste rio. A partir dessa grande configuração, os homens mortais desabrocham do barro e ganham vida.

O sangue da lua

A segunda alegoria da noite será avaliada por meio do item "Lenda Amazônica". "Mura-Pirahã, Três Preces de Esperança" leva a assinatura do artista Ferdinando Carvalho. A lenda conta a história do tuxaua Mura-Pirahã, que maculou a imagem da lua sagrada quando a viu surgir entre as árvores à noite. Com uma flecha, ele atingiu a lua e esta começou a sangrar. Com a desgraça, a natureza começou a punir a aldeia dos Mura: rios secaram, plantações sucumbiram às pragas e monstros da floresta devoraram os indígenas, restando apenas três mulheres.

Por conta da destruição causada, as mulheres, acuadas, fizeram moradia nas árvores secas e só saíam de seus topos para se alimentarem das cobras sobreviventes. Sem mais resistir à dor causada pela maldição, as mulheres entoaram um lamúrio-oração ao Criador, que se apiedou e, por meio dos olhos das cobras, criou uma tocha e, ao lado delas, começou a recriar o mundo. A elas, o Criador também garantiu o direito de proteger as terras, visto que estas foram anteriormente destruídas pela maldade masculina.

Brasil Colônia

A terceira alegoria da noite virá sob o item "Exaltação Folclórica". Batizada com o nome de "Festa de Um Boi Brasileiro", a estrutura é assinada pelo artista Glaucivan Silva. A alegoria sintetiza os vários elementos do Brasil Colonial, que confluem entre a resistência da cultura brasileira e das manifestações folclóricas diante do caos criado pelo homem branco na época da Colônia.

Na alegoria serão representados a igreja barroca, que abriga a hipocrisia de homens coloniais que se diziam cristãos, quando na verdade oprimiam a cultura indígena por meio da imposição do culto católico e por meio da escravidão dos negros. A alegoria, embora seja rica em cores, evidencia o aspecto sombrio do passado escravocata e da opressão religiosa. Na estrutura a cidade Parintins, que hoje é Patrimônio da Cultura Imaterial do Brasil, também é exaltada.

Doutor da floresta

A quarta alegoria representa a "Figura Típica Regional" e se chama "O Mateiro da Amazônia". Assinada pelo artista Alex Salvador, a alegoria fala do homem curandeiro que mora, geralmente, sob os rios e lagos, e dedica sua vida a entender em como a floresta pode ser sua farmácia natural. O mateiro sabe caçar, pescar e interage de maneira respeitosa com a natureza.

Seu maior talento é o manuseio das plantas e a utilização delas como instrumentos de cura dos mais variados problemas de saúde. Realiza as curas muito além das folhas, utilizando-se também dos seus ancestrais da floresta para potencializar o poder curativo dos remédios naturais. Quando se aproxima dos homens brancos, auxilia botânicos, indigenistas, missionários e antropólogos nas áreas que eles pouco conhecem - justamente as quais o mateiro domina.

Libertação yanomami

A quinta e última alegoria da noite é "Yanomami, A Cura da Terra". Confeccionada pelo artista Jucelino Ribeiro, a estrutura simboliza urihi, a nossa morada eterna, que por conta do desmatamento e poluição dos nossos rios, motivados pela extrema ambição do ser humano, acabaram libertando a Xawara, conhecido como o espírito invisível da morte. Esse espírito subiu ao céu e pode despencar a qualquer momento, derramando o fim da vida sobre a terra. Cabe ao pajé Yanomami ser levado ao mundo sobrenatural, localizado no topo de uma montanha que, na verdade, é a morada dos espíritos.

O cume da montanha recebe o nome de yaripo. Neste lugar mora o espírito dos ventos, chamado Moxuhemayoma, e a grande mãe Yoyoma, que pode freiar a ira das tempestades. Os únicos capazes de chegarem ao cume da yaripo são os pajés verdadeiros. Somente com o trabalho destas forças, os espíritos do bem, chamado xapiripes, podem derrotar os espíritos do mal, os xawaripes. As rezas e cânticos dos xapiripes têm força a ponto de curar a mãe-natureza e reestabelecer a consciência sagrada sobre a terra.

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