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Parintins
INSPIRAÇÃO VERMELHA

Primeira noite do Garantido será dedicada à identidade e resistência dos povos

O Boi da Baixa do São José celebra nesta noite, a resistência cultural das etnias que compuseram a formação do povo brasileiro 29/06/2018 às 00:15 - Atualizado em 29/06/2018 às 11:10
Show garantido
Foto: Antonio Lima
Laynna Feitoza Parintins (AM)

O Boi da Baixa do São José preparou um espetáculo de muito amor e garra para o 53° Festival Folclórico de Parintins. Nesta sexta-feira (29), primeira noite da disputa de cores entre os bumbás Garantido e Caprichoso, inicia o projeto “Auto da Resistência Cultural”, com o subtema “Identidade e Resistência”, que apresentará a formação da identidade dos povos.

“A primeira estrutura alegórica da primeira noite é a Celebração Folclórica Auto da Resistência Cultural”, adiantou o Edwan Oliveira, membro da Comissão de Artes do Garantido. A alegoria é assinada pelo artista Júnior Feijó. 

A Celebração Folclórica faz homenagens a figuras importantes de obstinação cultural. O Garantido celebra nesta noite, a resistência cultural das etnias que compuseram a formação do povo brasileiro, em especial de líderes como o cacique indígena Ajuricaba e o seringueiro Chico Mendes, que deram suas vidas em defesa dos povos da floresta. É uma celebração à resistência de Zumbi dos Palmares, em defesa dos negros que fizeram do Quilombo dos Palmares trincheira pela liberdade.

Fundador do Boi da Baixa

O artista Júnior Feijó também presta uma homenagem ao fundador do Garantido, mestre Lindolfo Monteverde, que lutou contra todos os preconceitos de sua época até fazer do seu boi um instrumento de resistência da cultura popular. É um tributo a todos que lutaram pela liberdade de seu povo e pela consciência de que é preciso respeitar os direitos individuais da pessoa humana, com todas as suas diferenças.

Ainda falando sobre um dos homenageados da noite, a próxima estrutura alegórica da noite contará, no momento da Lenda Amazônica, a história de resistência do guerreiro Ajuricaba, um tuxaua da tribo Manaó que preferiu se jogar no Encontro das Águas para se deixar carregar pela morte, ao invés de ser escravizado pela colonização portuguesa. Esse é um dos momentos mais dramáticos da resistência indígena na Amazônia.

A Comissão de Arte adiantou que a lenda narra as batalhas anti-colonialistas do guerreiro indígena, cuja herança, segundo o escritor Márcio Souza, “é um perfil de coragem e dignidade, virtudes que os povos indígenas sempre cultivaram para enfrentar a opressão”. Os povos da floresta acreditam que Ajuricaba vive encantado entre os bichos que habitam o mundo do fundo dos rios, destinado, na visão indígena Manaó, ao repouso dos grandes guerreiros que dignificaram a história de resistência do seu povo.

O tributo a Pindorama, a famosa terra das palmeiras, sucederá o momento de resistência de Ajuricaba no momento da Celebração Indígena. Nos módulos alegóricos serão contadas a história das etnias que integravam as grandes províncias indígenas Tupi. A alegoria falará sobre a invasão das terras indígenas e a exploração da floresta, além de todos os outros males causados pela colonização.

De acordo com a Comissão de Artes do Garantido, a resistência indígena foi uma consequência natural, mas infelizmente a violência dos invasores, com espada e arcabuz, avançaram terra adentro e dizimaram nações inteiras, em nome de uma civilização que se dizia cristã e em nome de Deus praticou atrocidades e genocídios.

A figura típica regional da primeira noite abordará os talentos do caboclo artesão. “Vamos apresentar o artesão parintinense que, através do seu trabalho, virou o espetáculo que deu identidade cultural ao Amazonas”, afirmou Edwan. É das mãos desses caboclos que o espetáculo nasce. O momento faz referências a Jair Mendes, que na visão folclórica, representa muito bem a imagem de caboclo artesão.

Em Parintins, as artes plásticas se originaram das influências indígenas, negras e dos colonizadores, por meio dos jesuítas, carmelitas e mercedários que fundaram missões religiosas na Amazônia. Em 1669, o jesuíta João Felipe Bettendorf fundou a Missão de São Miguel das Tupinambaranas, que mais tarde se tornaria Parintins.

Luta dos povos afrobrasileiros

A penúltima alegoria apresentará o tributo à consciência negra, que abordará a resistência dos povos afrobrasileiros, e a luta deste povo até a chegada às terras tupiniquins. A resistência negra está incorporada na história e amalgamada na identidade cultural do povo brasileiro, como marca profunda de uma consciência que atravessou os difíceis e dolorosos tempos da escravidão, quando inúmeras etnias negras foram arrancadas da Mãe África e submetidas a condições absurdamente desumanas da colonização europeia.

A estrutura alegórica traz a figura de uma mulher negra como deusa, e outra na parte superior vestindo asas. O módulo também faz referência à vereadora Marielle Franco, assassinada em janeiro por defender os direitos humanos, deixando exposta a necessidade emergente de que é preciso combater todo e qualquer tipo de preconceito, principalmente aqueles que atingem cotidianamente as comunidades negras.

O Ritual Indígena encerra a primeira noite com o sonho de Kanipaye-RO, que retratará na arena o ritual de transcendência espiritual do pajé. O ritual é baseado nas doutrinas da etnia Araweté, que vive na área do rio Ipuxina, no Pará. O povo Araweté acredita que os fenômenos da natureza e os animais da floresta são a representação de seres de outros mundos. Tudo de natural capaz de alterar a vida dos Araweté é atribuída a estes seres.

A alegoria traz 11 módulos com deuses transmutados entre falcões, cobras, onças, macacos e camaleões. Com dentes enormes, os módulos fazem alusão ao ato de engolir os indígenas. A vida dos Araweté é toda orientada pela antropofagia mítica dos povos indígenas do tronco tupi, que, milenarmente, se impuseram a necessidade de serem devorados pelos deuses canibais, para, se tornarem, também, um deles.

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