Terça-feira, 11 de Agosto de 2020
ARTESÃO

Rel Tavares começou vida nas artes pintando com talo de mato cortado

São várias as obras de Rel Tavares espalhadas por Parintins, seja do lado azul, seja do lado vermelho da Ilha Tupinambarana



0000_5356428F-BDD3-4D35-BDE7-3C1A97A81600.JPG O artista Rel Tavares (Foto: Euzivaldo Queiroz)
28/06/2019 às 10:34

Quando era criança em Parintins, o então garoto Renilson da Silva Tavares, sem dinheiro para comprar um pincel, iniciou no mundo da arte utilizando, de forma improvisada, o talo cortado e desfiado na ponta de um mato conhecido como “Vassoura de Bruxa”. Hoje, aos 46 anos, Rel Tavares, como é conhecido, é um conceituado artista escultor de bois na Ilha Tupinambarana.

“Sou natural de Nhamundá (a 381 quilômetros de Manaus) e aos 6 anos de idade fui morar em Parintins. Eu e meus pais não tínhamos condições financeiras, então, achei essa alternativa de fazer do matinho o pincel para pintar. Eu pegava ele, cortava, batia a ponta e ficava igual a um pincelzinho. Essa era a minha realidade. Eu pintava umas telinhas pequenas e minha professora, na época, comprava de mim. De primeiro, quando não havia fraldas, eu e meu irmão pegávamos coeiros para fazer nossas telinhas e pintar ”, explica o artista que integra o time de artesãos do Boi Caprichoso.



Herança de avó

Sua avó, Maria de Nazaré, era artesã, daí ele ter herdado o conhecimento. “Acho que adquiri esse conhecimento da minha avó, que fazia esculturas como panelas de barro e eu a acompanhava. Íamos para a beira do barranco, cavávamos um buraco e ela fazia uns bonequinhos, e deixava lá. Ela dizia que era pra ‘Mãe do Barro’, que judiaria da gente se não deixássemos uma oferenda para ela”, relembra ele.    

A realidade que viria anos depois seria de oportunidades e reconhecimento.  Em 1988, entrou para a tradicional Escola de Artes Irmão Miguel de Pascalle para aprimorar o conhecimento que já possuía. “Nesse ano eu trabalhei no boi contrário (Garantido)”, relembra ele.

Com o passar dos tempos passou a admirar o trabalho do artista da Comissão de Arte do Boi Garantido, Jair Mendes, que criou os movimentos do boi-bumbá (“Boi Biônico” do Garantido) e nas alegorias do Festival de Parintins. “Eu o admiro e ele passou a me admirar também”, conta  ele, sobre o Mestre Jair, como o ídolo é chamado.

São várias as obras de Rel Tavares espalhadas por Parintins, seja do lado azul, seja do lado vermelho da Ilha Tupinambarana. No lado do Caprichoso, por exemplo, é dele a reforma da escultura do boi na rua Rio Branco, reduto azul e branco de Parintins. Do vermelho, há menos de um mês ele concebeu um Boi Garantido em tamanho real na rua Armando Prado, tradicional localidade rubra.  

É dele, também, parte das esculturas do lado azul do muro que cerca o Bumbódromo de Parintins:  o próprio Boi Caprichoso, um pescador, um cortador de juta e uma serpente feita em parceria com Jair Mendes.

Evoluções e criações

Rel Tavares acompanhou várias evoluções no Festival de Parintins. Ele é de uma época na qual o galpão do Caprichoso tinha poucas pessoas trabalhando. “A evolução no boi começou na década de 1990 pra cá.  Antigamente, trabalhavam, no máximo, 12 pessoas no galpão; hoje, são 150 pessoas, até 200 quando é possível”, pontua ele, que já n egou convites para fazer esculturas em escolas como a Viradouro e por um dos maiores carnavalescos do País em todos os tempos: Joãosinho Trinta: “Foi em 1992, mas eu não quis, fiquei com medo”.

Mas, para quem é talentoso, os convites sempre surgem. Alguns anos depois, foi recrutado para atuar na confecção de carros alegóricos em desfiles na cidade de Ijuí (RS) e, desde o ano passado, é um dos artistas da escola de samba paulista Águias de Ouro – no ano passado, confeccionou peças como as máscaras emborrachadas de alegorias. E, neste, placas laterais, por exemplo.    

Suas duas últimas criações são os próprios bois Garantido e Caprichoso, em fibra: ambos ficarão expostos na Expoarte, exposição organizada pela Associação dos Artistas Plásticos de Parintins (AAPP) , localizada na avenida Amazonas. “Esses bois são feitos de 100% fibra e pesam cerca de 15 quilos cada”, explica o artista.

Para ele, a arte representa tudo. E a cultura bovina move tudo. “Eu sobrevivo da arte, Ela representa tudo para mim, hoje. Criei meus filhos e minha família através da arte. É a minha vida. Hoje o boi não move só Parintins, mas todo o Estado do Amazonas. Pra mim é muito importante e eu admiro. E independente de preferência bovina eu respeito o boi adversário”, salienta o escultor.

Repórter de A Crítica

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