Terça-feira, 23 de Julho de 2019
REPERTÓRIO

Toadas clássicas de Helen Veras retornam ao projeto do boi Garantido

Cunhã-poranga Isabelle Nogueira evoluirá na arena ao som de "Deusa Cunhã" e "Deusa das Cunhãs", compostas por Helen; Batucada também tocará "Tom Garantido" após 20 anos



_ASL7005__2__2906FB6C-B266-47C7-94FF-61187FF96791.JPG Foto: Antonio Lima
26/06/2019 às 20:55

O fascínio do artista Helen Veras pela beleza e força da mulher amazônida o tornou o compositor com o maior número de toadas destinadas aos itens femininos: ao todo, são 9 distribuídas entre os itens cunhã-poranga, rainha do folclore e porta-estandarte.

Sua poética com as palavras é tanta que duas toadas antológicas dele foram resgatadas para embalar os passos e expressões de Isabelle Nogueira em duas noites de apresentação na arena do Bumbódromo: "Deusa Cunhã" (2003), que vai ser tocada na primeira noite; e "Deusa das Cunhãs" (2005), prevista para a segunda noite de apresentação da índia mais bela da tribo.

São toadas que se eternizaram na arena. Apesar de antigas, entram sob uma configuração totalmente nova: a cunhã-poranga, pela primeira vez na história do bumbá, terá uma toada diferente para cada noite do festival. "O que se julga no item cunhã, além da beleza, é a coreografia, e a música retrata o que penso sobre a beleza das mulheres", coloca ele.

Ele, que tomou a figura feminina como baluarte na hora de compor, explica o porquê da inspiração ser tamanha. "A beleza da mulher amazônida me inspira, essa beleza rara, exuberância cabocla. Isso é só um dos motivos para homenagear uma mulher. Temos que saber dosar bem as palavras em forma de poesia", pondera ele.

Um exemplo é o descrito por ele na letra de "Deusa Cunhã". "Eu recito que ela se torna a própria glória da mulher na terra. A única que simbolizou isso historicamente foi Maria, mãe de Jesus, citada dessa maneira na Bíblia. Exalto muito a mulher por isso. Falo que o adorno delas é sua própria beleza. E para os jurados, isso é ótimo, por conta desse lado de endeusar a beleza da mulher", completa ele.

Por ser o autor das toadas que tecerão a passagem do item de Isabelle Nogueira pela arena, Helen justifica todas as credenciais da jovem ao item. "Conheço Isabelle há um tempão. Ela já é um ícone de grande esplendor dentro do boi. Ela se identifica com o personagem, ela se ingere numa índia. Isso faz parte do que eu descrevo na letra das músicas. Ela traz a inspiração dela, porque a letra diz que ela traz 'a graça e a beleza dos nossos ancestrais'", observa Veras.

O compositor destaca ainda que presta uma espécie de consultoria acerca do significado de diversos termos de suas toadas para a cunhã-poranga do boi Garantido. "A coreografia é feita em cima da música e a Isabelle, por ter essa experiência, incorpora as músicas. Ela pede pra explicar, por exemplo, o que é 'oblação dos povos da floresta'. Oblação são os caboclos fazendo oferendas aos deuses, pedindo a consagração da cunhã na terra. Qual seria a consagração dela? Que ela se torne a própria glória de mulher aqui na terra", explica ele.

Superação

Por meio da arte, Helen, de alguma maneira, "estanca" uma dor que ainda está latente em seu peito: a da partida do filho Victor Hugo Veras, que ocorreu no mês de abril, em decorrência de um acidente de carro. "A música tem me ajudado a lidar com a perda porque é uma coisa que ele gostava muito. Sempre me acompanhou nas festas. Ele tinha acabado de fazer 20 anos, e em muitas das minhas obras ele fazia até uns ajustes", coloca Helen.

Veras lembra que, embora o filho cursasse engenharia de petróleo, Victor Hugo tinha um envolvimento muito grande com as artes. "Ele não era músico profissional, mas tocava vários instrumentos. Ele também sempre lapidava minhas rimas. Toda vez que eu fazia uma letra, pedia para ele dar uma olhada. Isso sempre tinha um 'dedinho' dele porque ele sempre gostou de português, de escrever", comenta o compositor.

Valorização

O retrato da imagem feminina nas toadas se deu, principalmente, da necessidade de se abordar mais sobre ela na arena. Quando Veras chegou no boi-bumbá há cerca de 20 anos, as mulheres não tinham muito espaço, segundo ele. "Sempre reproduzi a importância da mulher, porque esses pensamentos de idade média (de que a mulher tem que ficar somente em casa) nunca existiram na minha criação", coloca ele.

E é dele, também, as primeiras toadas voltadas aos itens rainha do folclore e porta-estandarte. "A rainha do folclore não tinha toada e eu criei a primeira toada do item, chamada 'Lua Morena' (2003). Fiz a sequência dela com 'Garça Morena' e 'Terra Brasileira'. E criei a primeira toada da porta-estandarte também, que chama 'Esplendor de Beleza' (2005). Eram itens que existiam no boi que não eram exaltados, principalmente por causa da figura feminina. Os mais exaltados eram as figuras de levantador e amo do boi", destaca ele.

Batuques

Outro item, até 1997, não possuía toada específica: a Batucada. "Eles são o coração do boi, fazem pulsar. Pensamos em homenageá-los e criamos a toada 'Tom Garantido' - que também foi resgatada para representar a Batucada no festival de 2019. A música foi tocada em 97, 98 e depois disso ficou 20 anos sem ser tocada na arena. Só em 98 a toada tocou 24 vezes na arena. Ela foi resgatada porque a toada 'Marujada de Guerra', do boi contrário, é muito parecida com a minha", explica Veras.

O compositor comenta ainda que foram feitas algumas adaptações em "Tom Garantido" - composta por Helen e Tadeu Garcia. Dois versos do refrão ("Lê, lê, lê, eh - caixinha quero ver/Lê, lê, lê, ah - repique para o ar") foram alterado para a versão de arena, que será " Lê, lê, lê, eh - palminha quero ver/ Lê, lê, lê, ah - balança esse rocar". "Fizemos uma música repaginada para a Batucada. Quando a música toca ganhamos uma injeção de ânimo, foi um presente nosso aos batuqueiros, um presente eterno. Tem uma frase que diz que a festa acontece sem a Batucada", assegura ele.

Entre doses de poesia e estratégia, tudo se faz necessário um pouco para conquistar os jurados. E, claro, vale também exaltar o que tem de melhor no seu boi. "Não podemos cativar só na visão, mas também na audição do jurado. Enquanto o Caprichoso diz que eles são as estrelas, eu digo que a cunhã-poranga é a lua entre as estrelas. É uma timbragem muito forte", coloca Helen Veras. E os surdos redondos da Batucada certamente são como luas que, ao serem tocadas, vertem seu som em magia.

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