Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019
TORCEDORES

Torcedoras especiais falam do amor e paixão pelos bois de Parintins

Torcedoras que não podem mais distinguir o que é vermelho e azul, mas que sentem as cores com os olhos do coração



bois_E1AF6F01-C3A7-41C9-A932-12A93D60E749.JPG Jocivane Castro Rodrigues, 24, estudante cega e torcedora do Caprichoso. Foto: Euzivaldo Queiroz
25/06/2019 às 04:01

Ser torcedor de boi-bumbá é ir além. É ter amor e paixão por uma brincadeira folclórica que expandiu fronteiras além de Parintins. E é nos ensinar, a cada dia, exemplos de sensibilidade à flor da pele a partir de pessoas que não podem mais distinguir o que é vermelho e azul, mas que sentem as cores e o dois pra lá, dois pra cá,  característicos com os olhos do coração, ou como se fossem dois diamantes do mais valioso quilate. Igual aos bois.

Cega desde os 11 anos de idade em decorrência de descolamento de retina, a estudante Jocivane Castro Rodrigues, 24, é torcedora do Caprichoso daquelas de ir anualmente ao Bumbódromo prestigiar seu boi junto com sua mãe, Eunice de Castro Freitas e sua filha, Melissa, de apenas 3 anos.

Quando ouve uma toada do azul, ela conta sentir muita emoção. “Eu gosto do Caprichoso, e tenho um carinho muito grande por ele, sou uma torcedora dedicada. É muita emoção ouvir uma música dele”, diz a jovem, cantarolando sua toada preferida - “Paixão de Uma Nação” (“É paixão, amor azul / A cor desse boi / Que já faz parte de mim”).

A estudante ressalta um personagem fundamental no seu boi e que também é cego: David Assayag. “Ele é uma pessoa muito dedicada, pois nós, com deficiência visual, nossa memória tem que ser muito boa pra cantar em um Festival como o de Parintins. Ele tem as letras na cabeça dele. É emocionante”, comentou ela, que nunca falou pessoalmente com o levantador de toadas oficial.

A reportagem acompanhou  Jocivane a um lugar muito especial para ela: ao Curral Zeca Xibelão, para visitar seu boi de paixão. A última vez havia sido em 2015, antes da gravidez. Ao tocar na estrela da cabeça do boi, ela sorriu como uma criança ao receber um brinquedo. “Foi uma emoção muito grande estar ao lado do meu boi. Fiquei feliz de ter tateado. Apesar de não ver, consegui sentí-lo”, contou ela, emocionada.

 Emoção e sensação 

A história da dona de casa Maria Célia Rolim Valente, 69, se confunde com a do próprio Boi  Garantido: ela conta ser sobrinha de Lindolfo Monteverde, desde pequena cresceu no boi da Baixa do São José e integrava um setor extinto pela associação folclórica: as Comadres, reunião de mulheres notáveis do boi que angariavam recursos, faziam roupas dos ítens e coordenavam grupos que se apresentavam no Bumbódromo pelo boi, como a Tribo das Tupinambás, que virou tradição no vermelho e branco.

Dona Maria comandava a loja “A Princesinha”, que tinha três filiais em Parintins e que vendia de perfumes a confecções. Grande parte do dinheiro ia para custear as despesas do Garantido, disse ela. “Não me arrependo. Eu gostava de ajudar o boi, sou apaixonada”, conta a moradora da rua Armando Prado.

A cegueira a partir de uma diabete fez ela se afastar obrigatoriamente da linha de frente do seu boi de coração há 13 anos. E não identificar mais a cor vermelha. Mas a paixão, ah essa nunca morre. Só se transformou: “Eu choro ao ouvir o Garantido no Bumbódromo todos os anos. É muita emoção”.

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