Publicidade
Parintins
IDEOLOGIA

'Vamos mostrar a nossa verdade', diz carioca da Tuiuti sobre número no boi Garantido

Bailarinos do Rio de Janeiro coordenados por Patrick Carvalho, criador da comissão de frente da Tuiuti no Carnaval 2018, vão se apresentar durante a toada 'Consciência Negra' 27/06/2018 às 09:28 - Atualizado em 27/06/2018 às 09:30
Show  asl8230
(Fotos: Antonio Lima)
Laynna Feitoza Parintins (AM)

A satisfação era visível no rosto do coreógrafo carioca Patrick Carvalho, do Rio de Janeiro, enquanto aguardava o início do ensaio técnico na arena do Bumbódromo na terça (26). Recém-chegado em Parintins, ele comentou sobre a sensação de liberdade e paz que sentiu na Ilha Tupinambarana. “Vivemos em um País onde temos medo de cair de casa. Aqui eu vi que é um pouco menos. Aqui as pessoas ainda conseguem sentar na varanda, conseguem deitar na frente das suas casas. No Rio de Janeiro, isso não existe mais”, coloca Patrick.

O motivo da visita do coreógrafo a Parintins é nobre: ele coordena 15 bailarinos que vão se apresentar em conjunto com 50 membros do grupo de dança Garantido Show na primeira noite de festa do boi Garantido. Na coreografia, os bailarinos, em conjunto, vão mostrar a força e a resistência da população negra, bem como a realidade do preconceito sofrido por eles.

Patrick é o coreógrafo criador da impactante e necessária comissão de frente da escola de samba Paraíso da Tuiuti no Carnaval 2018. Chamada “O Grito de Liberdade”, a comissão de frente apresentava negros acorrentados, de modo a questionar o fim da escravidão do Brasil. “Foi uma comissão de frente mega premiada na Tuiuti. Ganhou o prêmio Estandarte de Ouro. Agora estou na escola Vila Isabel, como coreógrafo da comissão de frente”, comenta Carvalho.

Os bailarinos de Patrick vão participar de duas performances. A primeira, que segundo Patrick deve abrir o festival, foi guardada por ele a sete chaves. Já a segunda foi mostrada no ensaio técnico, durante a avaliação dos itens “Toada, Letra e Música” e “Levantador de Toadas”, ao som da música “Consciência Negra”. Durante a toada os bailarinos apresentaram uma performance afro, enquanto Sebastião Júnior cantava e tocava percussão, levando a galera ao delírio.

“Eu vim com o trabalho já coordenado por mim no Rio de Janeiro, diretamente com minha equipe. Vim com a galera da comissão de frente do Carnaval e vim agregar com a galera daqui. Mandei meu assistente para cá duas semanas antes, e ele ensaiou os dançarinos daqui”, coloca o coreógrafo, alegando que as negociações para a participação do grupo carioca partiram do presidente do Garantido, Fábio Cardoso.

“O presidente Fábio Cardoso estava no Rio de Janeiro no Carnaval e viram o sucesso daquele trabalho nosso. Eles entraram em contato comigo através do Ivo Meirelles, e a gente afinou a parceria”, declara ele. Sobre a performance mantida em segredo, Patrick só adianta que será evidenciada nela a verdade. “Falaremos da resistência cultural em si. Vivemos num País que não respeita ninguém. Por isso a gente quer falar, quer gritar”, pondera o coreógrafo.

Para alinhar a coreografia dos cariocas junto às danças com trejeitos indígenas, Patrick garante que foram feitos vários estudos. “Estudamos muito o festival daqui, até porque é um festival que a gente sonhou muito em conhecer. Todos nós do Rio sonhamos em vir a Parintins conhecer isso de perto. É tão falado, a gente assiste tanto. Grandes profissionais daqui vão trabalhar no Carnaval do Rio. Nesse ano, pela primeira vez está vindo um profissional do Rio trabalhar em Parintins. Acho que será bacana para a cidade, para o festival”, declara ele.

O carioca sabia que, tecnicamente, os bailarinos do Rio de Janeiro conseguiriam desenvolver as coreografias. “Mas a essência a gente sabia que só iria conseguir alcançar quando chegasse aqui. Depois que chegamos aqui e passamos a conviver com os parintinenses, a essência veio natural”, afirma Patrick, lembrando que, além da resistência do povo negro, o grupo também falará da resistência indiana.

“São dois povos muito maltratados. As duas coreografias vão ter referências desses dois povos. Haverá muitos momentos de como eles sofreram, de como doeu na carne. É uma coreografia de encenação da verdade brasileira. A alma, a pele e suor de cada brasileiro vai estar um pouco nesse trabalho”, completou Carvalho. Na pele, nos olhos e na alma brasileira.

 

Publicidade
Publicidade