entrevista

Márcio Neves, diretor da Amazon, defende melhorias das rodovias no Amazonas

Em meio à promessa de recuperação da BR-319, o diretor de operações da Amazon Brasil afirma que a falta de rodovias com qualidade em regiões do Norte é uma grande dificuldade 

Waldick Júnior
24/05/2026 às 06:58.
Atualizado em 24/05/2026 às 06:58

Márcio Neves, diretor de operações da Amazon Brasil (Foto: Divulgação)

Diretor de operações da Amazon Brasil, Márcio Neves afirmou que uma possível recuperação da rodovia BR-319 (Manaus – Porto Velho) seria benéfica não só para facilitar as entregas de produtos nas região, mas também para aumentar a conexão entre vendedores nortistas e potenciais clientes dentro e fora da região.

A reportagem acompanhou, a convite da empresa, o Amazon Conecta, realizado nesta semana em São Paulo (SP). Em sua sexta edição, o evento reuniu mais de 2 mil vendedores para capacitações com foco em expansão de negócios.

Em entrevista, Márcio Neves também adiantou que a empresa prepara um plano de logística para manter suas operações no Amazonas durante a seca do segundo semestre, prevista para ser uma das mais intensas dos últimos anos. Detalhou ainda o novo programa de hubs da Amazon, que está em expansão pelo Brasil e deve chegar ao Amazonas no último trimestre do ano. Confira a entrevista completa.

Como a Amazon enxerga a região e qual a importância que já tem hoje para a empresa?

A região Norte é uma região que a Amazon vê com bastante carinho. Nós começamos a investir em 2024 em entregas mais rápidas na região. Colocamos transferências aéreas, uma parceria com a Azul, para entregar em até dois dias para Manaus e Belém. Foi um grande sucesso. A gente entregava em oito a dez dias. O volume multiplicou por cinco em seis meses, especificamente em Manaus. Expandimos para Belém e, em seis meses, foi similar: quatro a cinco vezes de crescimento. Rodamos assim até o primeiro semestre de 2025, com o volume crescendo. Em meados do ano passado, fomos além. Pegamos barcos em Manaus e, eu, particularmente, rodei as comunidades ribeirinhas e plugamos algumas delas, na época foram três comunidades.

Eram comunidades da zona rural de Manaus?

A gente pegou barco e foi adentro dos rios. Tem comunidades que ficam em locais que não tinha entrega de nenhuma espécie, por exemplo. A gente começou a testar. As entregas aconteceram, conversamos com líderes de comunidade. O volume começou a aumentar e veio a ideia de contratar um parceiro da região com estrutura para transferir pacotes para todas as comunidades ribeirinhas. Expandimos o projeto e, no mês passado, completamos 154 comunidades ribeirinhas atendidas com prazo de dois a três dias, com volumes vindos de São Paulo.
A região Norte tem uma demanda de 5% quando olho para o Brasil inteiro. Mas com um potencial que a gente acredita que pode chegar a 10%, pode dobrar. No ano passado, lançamos uma estação de entrega própria da Amazon em Manaus, um centro de entrega próprio. Temos estudos recorrentes para avaliar se vale a pena termos um inventário próximo em Manaus ou em Belém.

O que é esse inventário?

O inventário próprio é abrir um armazém, como temos em Fortaleza, Recife e Salvador. A dificuldade maior, no caso da região Norte, não é o volume, que já existe para isso. É como os nossos fornecedores levariam as mercadorias até Manaus ou Belém e qual o custo para o cliente final. Isso é o que mais importa.
Para o Amazonas especificamente, o inventário não é um problema. Estamos falando de uma seleção de produtos recorrentes do dia a dia ou de emergência, que a gente pode conectar com vendedores locais para abastecer.

Já tem previsão para Manaus?

Não tem previsão ainda, mas em breve podemos ter esse dado. É uma possibilidade, não só para Manaus, mas para Belém também. Nas duas capitais, onde está a principal demanda no momento.
Norte e Nordeste juntos, a gente acredita que podem chegar a 35% da nossa demanda. Apesar de olharmos muito para São Paulo, a base de vendedores do mercado ainda é muito concentrada no Sudeste, mas há um potencial enorme de vendedores locais na região Norte e no Nordeste para capacitar e plugar no nosso ecossistema.

Vocês fizeram algo muito relevante, que é o frete grátis. Por muito tempo existia um meme de que havia entregas grátis para todo o país, com exceção do Norte e Nordeste. Como conseguem fazer isso e quanto aumentou o volume de vendas?

É uma quebra de paradigma. O que a gente fez foi basicamente um teste: e se a gente começar a entregar rápido, com frete grátis, em regiões que hoje não têm esse serviço? Qual o potencial? Fizemos a análise e vimos que o potencial é enorme, mas o volume ainda era muito pequeno nessas regiões. A proporção das regiões em relação ao PIB era muito maior do que o volume que tínhamos.
A decisão foi: vamos testar, reduzindo o prazo via modal aéreo, e vamos expandir o Prime com frete grátis para essas regiões. O resultado foi um sucesso. A gente acredita muito que a frequência de compras e a maior quantidade possível de produtos gera um enriquecimento alto da relação com o cliente.
No início, enviar uma pasta de dente com frete grátis para o Acre, via aéreo, olhando só aquele produto, não se paga. Mas um cliente Prime que usa nossos streamings, que compra uma pasta de dente hoje e conta para o vizinho amanhã, isso é o que chamamos de Flywheel, um conceito da Amazon. Com o tempo, a conta se paga. Comprovamos com esse piloto, e agora o mercado inteiro está tentando se mobilizar nesse sentido.

A gente tem empresas muito tradicionais no Amazonas, como Bemol e Ramsons, quase parte da cultura amazonense. Como olham para a concorrência e como planejam a própria inserção nesse espaço?

Vejo sempre como complementar. Se pegar o percentual de penetração do e-commerce no varejo total brasileiro, está em torno de 16%. Antes da pandemia, era entre 7% e 8%. Em países onde a penetração é muito maior, como China e Estados Unidos, já chega a quase 30%. Então, crescer de 16% para 30% significa dobrar o tamanho do mercado de compras online.
Como vamos ter capacidade para atender essa demanda? Usando os fornecedores locais, que têm conhecimento da demanda local. Empresas como a Bemol, que têm capilaridade, são parceiros que a gente procura para aprender e para fazer parcerias de entrega, aproveitando a estrutura que elas já têm. É uma relação de ganha-ganha: elas ganham conexão com uma plataforma grande de vendedores, a gente ganha cobertura local.

As empresas do Amazonas já se planejam para a seca do segundo semestre, que deve ser intensificada se ocorrer um super El Niño. Companhias estão adquirindo mais estoque, os portos estão planejando transbordo de cargas. Como a Amazon está olhando para isso?

É um ponto que a gente está super de olho. Nossas entregas nas comunidades ribeirinhas dependem de navegabilidade e condições climáticas. Como hoje não temos estoque dentro de Manaus, transferimos os produtos via modal aéreo, na maior parte. O nosso foco, neste primeiro momento, é manter os prazos de entrega mesmo com as disrupções climáticas que vão acontecer, como secas mais intensas.
Já estamos conversando com os nossos parceiros locais sobre mudanças de modal, de fluvial para bases de apoio com entregador a pé, de bicicleta ou de moto, e comunicando aos moradores das comunidades que as entregas poderão sofrer alterações, com retirada em pontos mais próximos em vez de entrega na porta. Esse plano a gente já está trabalhando em antecipação.

Você já deve ter ouvido falar da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. O governo federal anunciou que irá recuperar a estrada após anos com essa tentativa sem avançar. Se for repavimentada, é uma possibilidade para envio de mercadorias?

Qualquer conexão terrestre em locais que hoje só conseguimos atender via aéreo é muito benéfica para a logística no geral. A grande dificuldade de acesso a algumas regiões do Norte é não ter rodovias com boa qualidade de tráfego. Porto Velho, por exemplo, a gente faz via aéreo. Com essa conexão, e com estações de entrega que já temos em parceria com outras capitais da região Norte, vai facilitar muito.
Acho que entra outro tema central aqui: a gente fala muito em conectar vendedores de São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte com a região Norte, mas o potencial de conectar vendedores locais que produzem seus próprios produtos e vendem regionalmente só em lojas físicas, transformando-os em vendedores online com conexões mais rápidas entre as capitais do Norte, é uma possibilidade de crescimento importantíssima.

A Amazon lançou um programa de hubs, que permite a pequenos negócios se tornarem espaços parceiros para entrega e recebimento de produtos vendidos pela Amazon. Tem plano para esse projeto chegar à região Norte?

Estamos começando a expansão do programa Hubs em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Brasília. São as primeiras cinco capitais onde o programa está avançando, até o Prime Day [em setembro]. Depois do Prime Day, a expectativa é que até a Black Friday o programa esteja em todas as capitais onde já temos estações de entrega, que é o caso de Manaus e de Belém. Para o ano que vem, com o sucesso que já está sendo em São Paulo e no Rio, a gente pode ir para todas as capitais do país.
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