Relatório será apresentado aos enviados da COP30 e tem recomendações para transformar sistemas agroalimentares da região
Documento será apresentado aos enviados da COP30 (Divulgação)
Um relatório robusto, construído por quase 50 autores e organizado pela rede Uma Concertação pela Amazônia, foi lançado nessa semana com recomendações para transformar os sistemas agroalimentares da região. O documento, que será apresentado aos enviados da COP30, propõe mudanças estruturais em toda a cadeia — da produção ao consumo e descarte — com o objetivo de conciliar segurança alimentar, conservação ambiental e inclusão social.
Em entrevista exclusiva à reportagem de A CRÍTICA, Geórgia Jordão, responsável pela área de Conhecimento da Concertação e uma das coautoras do caderno, o diagnóstico parte de uma realidade dura.
O relatório apresenta o conceito de “movimento duplo”, que combina o fortalecimento de inovações sustentáveis com a desativação de práticas nocivas. Para o caso do Amazonas, Jordão explica que o primeiro passo é conter atividades que mais impactam os ecossistemas e a alimentação local.
Geórgia Jordão é uma das coautoras do caderno
Entre as práticas listadas estão a expansão acelerada da pecuária extensiva e de monoculturas, a construção de grandes obras de infraestrutura sem planejamento territorial, a substituição de alimentos tradicionais por ultraprocessados e a destinação de crédito subsidiado para o agronegócio convencional.
Para reverter esse cenário, o relatório sugere instrumentos como redirecionar o crédito rural para a sociobiodiversidade, ampliar a fiscalização ambiental, proibir a titulação de áreas com desmatamento recente, tributar ultraprocessados e investir em rastreabilidade.
Em 2023, o Amazonas viveu uma das piores secas da história, afetando duramente cadeias produtivas no Alto Rio Negro, Médio Solimões e Purus. Questionada sobre como o relatório ajuda a preparar a região para crises semelhantes, Geórgia Jordão destaca que a resiliência passa pela integração entre conhecimento tradicional, diversificação produtiva e políticas públicas.
Exemplos práticos citados incluem o manejo da mandioca e do babaçu, a atuação da associação Mapana no Alto Solimões e a Cozinha Boca da Mata em Manaus, que conecta saberes ancestrais à segurança alimentar urbana.