Sistemas alimentares da Amazônia na COP30

Documento traz propostas para desativar práticas nocivas e fortalecer cadeias sustentáveis

Relatório será apresentado aos enviados da COP30 e tem recomendações para transformar sistemas agroalimentares da região

Lucas Vasconcellos
23/08/2025 às 17:37.
Atualizado em 23/08/2025 às 17:37

Documento será apresentado aos enviados da COP30 (Divulgação)

Um relatório robusto, construído por quase 50 autores e organizado pela rede Uma Concertação pela Amazônia, foi lançado nessa semana com recomendações para transformar os sistemas agroalimentares da região. O documento, que será apresentado aos enviados da COP30, propõe mudanças estruturais em toda a cadeia — da produção ao consumo e descarte — com o objetivo de conciliar segurança alimentar, conservação ambiental e inclusão social.

Em entrevista exclusiva à reportagem de A CRÍTICA, Geórgia Jordão, responsável pela área de Conhecimento da Concertação e uma das coautoras do caderno, o diagnóstico parte de uma realidade dura.

“A região da Amazônia Legal enfrenta o desafio de transformar modos de produzir, distribuir e consumir alimentos, caracterizado por altos índices de desmatamento, insegurança alimentar e nutricional e ineficiência econômica, para construir um sistema agroalimentar mais justo e regenerativo”.

Desativar práticas nocivas no Amazonas

O relatório apresenta o conceito de “movimento duplo”, que combina o fortalecimento de inovações sustentáveis com a desativação de práticas nocivas. Para o caso do Amazonas, Jordão explica que o primeiro passo é conter atividades que mais impactam os ecossistemas e a alimentação local.

“O ‘movimento duplo’ refere-se à estratégia de, simultaneamente, desativar progressivamente práticas e estruturas que perpetuam sistemas agroalimentares insustentáveis e impulsionar inovações que emergem dos territórios. Não basta ter soluções. É preciso desativar o que destrói”, afirma.

Geórgia Jordão é uma das coautoras do caderno

 Entre as práticas listadas estão a expansão acelerada da pecuária extensiva e de monoculturas, a construção de grandes obras de infraestrutura sem planejamento territorial, a substituição de alimentos tradicionais por ultraprocessados e a destinação de crédito subsidiado para o agronegócio convencional.

Para reverter esse cenário, o relatório sugere instrumentos como redirecionar o crédito rural para a sociobiodiversidade, ampliar a fiscalização ambiental, proibir a titulação de áreas com desmatamento recente, tributar ultraprocessados e investir em rastreabilidade.

Resiliência diante da seca histórica

Em 2023, o Amazonas viveu uma das piores secas da história, afetando duramente cadeias produtivas no Alto Rio Negro, Médio Solimões e Purus. Questionada sobre como o relatório ajuda a preparar a região para crises semelhantes, Geórgia Jordão destaca que a resiliência passa pela integração entre conhecimento tradicional, diversificação produtiva e políticas públicas.

“O relatório recomenda sistemas agroalimentares regenerativos, que alinham a produção de alimentos com os ciclos ecológicos da floresta, valorização dos serviços ecossistêmicos, e também os saberes dos povos originários e tradicionais, fundamentais para a resiliência dos sistemas locais”, explica.

Exemplos práticos citados incluem o manejo da mandioca e do babaçu, a atuação da associação Mapana no Alto Solimões e a Cozinha Boca da Mata em Manaus, que conecta saberes ancestrais à segurança alimentar urbana.

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