Desastres

Mães de baixa renda e chefes de família são mais afetadas por desastres ambientais

Estudo foi feito pelo Instituto Pólis

Agência Pública
06/08/2022 às 08:51.
Atualizado em 06/08/2022 às 08:51

(Foto: Reprodução TV Brasil)

No final de maio, 128 pessoas morreram e ao menos 6 mil ficaram desabrigadas devido às fortes chuvas que atingiram Recife e a região metropolitana da capital pernambucana. Já a cidade de São Paulo teve o mês de julho mais seco de sua história, após passar 47 dias sem qualquer sinal de chuva.

Com o aumento da temperatura, a tendência é que extremos como esses  se tornem cada vez mais comuns. E com eles o número de pessoas atingidas. A medida como esses desastres afetam as cidades, porém, segue uma lógica conhecida: os que mais sofrem com isso são pessoas negras, de baixa renda e que habitam regiões periféricas, em especial mães chefes de família, como mostra relatório do Instituto Pólis ao qual a Agência Pública teve acesso.

O estudo “Injustiça socioambiental e racismo ambiental” observou três capitais brasileiras — Belém, Recife e São Paulo — e encontrou padrões que se repetem no resto do país. A partir dos dados, é possível enxergar como o racismo ambiental, que entende que as consequências das degradações ambientais se concentram em territórios periféricos, regiões com maior presença de pessoas negras, indígenas e quilombolas e menos acesso a recursos e serviços ambientais básicos como água limpa, saneamento e tratamento de lixo, acontece na prática.

Em Belém, que tem 64% da população negra, 75% das pessoas que moram em áreas de risco são negras, mostra o estudo. Em Recife, 55% da população é negra, mas nas regiões com risco de inundação o valor sobe para 59%, e atinge 68% onde há risco de deslizamento. Em São Paulo, apenas 37% da população é negra — em comparação com a média brasileira de 54%. Mas 55% das pessoas que vivem em regiões de risco são negras.

Regiões afetadas por fortes chuvas em Recife, em 2022. Áreas com mais risco de desastres são as que mais concentram pessoas negras, indígenas e quilombolas

“Os impactos ambientais nas cidades são socialmente produzidos: não são apenas fruto de eventualidades climáticas. No entanto, a distribuição de suas consequências se dá de forma desigual no território urbano. Esse desequilíbrio é, em parte, a expressão da injustiça socioambiental e do racismo ambiental nas cidades”, afirma o relatório.

De acordo com o estudo, as áreas de risco não têm valor para o mercado formal e estão fora das frentes de interesse do setor imobiliário. “Sua ocupação por famílias de baixa renda ocorre pela total falta de alternativas habitacionais. As condições financeiras das famílias de baixa renda são insuficientes para arcar com os custos da moradia no mercado formal – seja para aquisição ou para locação”. 

 Belém

 Dividida entre o continente e 42 ilhas que ocupam cerca de dois terços do seu território, Belém está às margens da Baía do Guajará e do Rio Guamá e tem o justificado título de capital mais chuvosa do Brasil, com média pluviométrica anual de 2085 mm – enquanto a média do país varia entre 1250 e 2000 mm. A cidade possui 125 áreas de risco, que, apesar de ocuparem 5% de seu território, abrigam 11,5% da população – 173 mil pessoas, segundo dados da pesquisa.

Cerca de 99% dos 193.557 domicílios em favelas estão localizados em encostas e 1% em margens de rios, lagos ou córregos. Mulheres de baixa renda, com até um salário mínimo, e chefes de família são mais afetadas: representam 21% das moradias em áreas de risco — taxa que desce para 16% na média da cidade. 

Os dados também mostram que a porcentagem de pessoas negras é inversamente proporcional à renda média: nos domicílios que se encontram em área de risco, a renda familiar tem a média de R$1,7 mil, valor 32% menor que a média geral da cidade, de R$2,5 mil.

A engenheira sanitarista e ambiental Waleska Queiroz, de 28 anos, trabalha há mais de 10 anos em projetos socioambientais. Assim como muitos de seus vizinhos, ela foi remanejada de sua casa na Avenida Perimetral, próxima à Universidade Federal do Pará, para que a via fosse duplicada. Sua família e muitas outras foram realocadas em um conjunto de prédios de habitação social próximo à margem do rio Tucunduba. 

Lá ela se sente frequentemente ameaçada: “A minha grande preocupação morando próximo ao [rio] Tucunduba é que vai haver um momento com toda essa questão de mudança do clima, mudança no índice pluviométrico, com chuvas mais fortes, mais intensas, que vai chegar um momento em que esse rio não vai suportar essa carga. Até porque a drenagem do local já está toda impermeabilizada, então não tem por onde a água escoar. E aí conciliado à questão dos resíduos, que estão ali entupindo vias e tudo mais, esse processo fica ainda mais significativo.”

Parte da Rede Jandyras, grupo de mulheres que pautam a questão climática em busca da construção de políticas públicas mais efetivas na capital, ela ressalta o papel do racismo ambiental na sua realidade. “Quando eu falo disso, quando eu falo desse ambiente não saudável e concilio com a pauta climática, eu entendo que eu estou sofrendo um processo de racismo ambiental. Eu sofri desde o momento em que eu saí do meu território, [em] que eu construí a minha história, a minha identidade. Me tiraram dali à força, sem entender a minha história, e me colocaram em um ambiente que está totalmente degradado”, conta Waleska.

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