Apesar de haver diversos cursos no ensino superior, não há cursos específicos para indígenas no ensino superior
Curso de formação de professores indígenas na Ufam tem recebido destaque pela qualidade do ensino oferecido, sendo avaliado com nota máxima (5) pelo MEC (Foto: Jeiza Russo/A Crítica)
A formação de professores indígenas tem se tornado uma realidade cada vez mais presente no Amazonas, com a existência do curso de licenciatura indígena na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desde 2008. Este curso pioneiro tem formado turmas de estudantes indígenas que buscam se capacitar para atuar nas aldeias e contribuir para a educação de seus povos.
Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, a professora Rita Florimar, atual chefe do Departamento de Educação Escolar Indígena da Faculdade de Educação (Faced/Ufam), destacou a importância da existência desse curso pois já é notória a presença de estudantes indígenas em diversos cursos do ensino superior, mas não há cursos específicos para indígenas no ensino superior do Amazonas.
Nesses 16 anos de existência, o curso já formou 370 professores indígenas de quase 30 etnias diferentes, divididas em 8 turmas em 17 municípios do interior do Amazonas (sendo uma turma realizada município no Pará).
O professor indígena Mariomar Moreira de Souza, 54 anos, é um dos egressos da primeira turma do curso em 2008 quando foi ofertada para o Povo Mura, no município de Autazes.
O educador, formado na área de Exatas e Biológicas, relembra a incansável luta dos povos indígenas em conseguir acesso ao ensino superior no Amazonas.
Mariomar destaca ainda que a formação de professores indígenas no povo Mura foi de extrema importância pois capacitou a população indígena a ter um maior conhecimento para reivindicar seus direitos.
“A formação que nós professores Mura tivermos foi de importância que não consigo definir em palavras. Hoje com os conhecimentos adquiridos e ampliados, temos lutado por nossos direitos fundamentais que é o nosso território, saúde, educação de qualidade entre outros”,
O curso de formação de professores indígenas na Ufam tem recebido destaque pela qualidade do ensino oferecido, sendo avaliado com nota máxima (5) pelo Ministério da Educação (MEC). Isso demonstra, segundo a coordenadora Rita Floramar, o comprometimento da universidade em proporcionar uma formação de excelência para os futuros educadores indígenas.
Rita Florimar é a atual chefe do Departamento de Educação Escolar Indígena da Faculdade de Educação (Faced/Ufam)
“O curso quando foi avaliado em 2014 pelo MEC, ele já começou com uma nota altamente positiva. Agora, neste ano, conseguimos a nota 5, que é a maior nota. Então, é considerado um curso de excelência. Nós temos, politicamente, um quadro específico de docentes, todos com doutorado, somente para atender a demanda indígena. E isso é muito importante porque é uma luta do movimento indígena que vem sempre tentando reivindicar seus direitos”, destacou Floramar.
Pela primeira vez em 16 anos, o curso está sendo ofertado em Manaus. Hoje, com 97 estudantes indígenas de povos indígenas do Baixo Amazonas localizado que vieram do municípios Anamã, Beruri, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manaquiri, Novo Airão, Rio Preto da Eva e também de Manaus.
A artesã de 50 anos, Claudineia Gama Brito, do povo Tariano, vê no curso uma oportunidade de aprendizado, de entender novos conhecimentos. Claudineia faz parte da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIRIN).
Claudineia Gama Brito, de 50 anos de idade, é artesã do povo Tariano e ressaltou a importância de revitaliza a cultura, crenças e tradições para manter a cultura viva.
Outro estudante que reconhece a importância de sentar em um banco na universidade pública é o já professor de 36 anos, Jeremias Oliveira dos Santos, da etnia Mura.
Jeremias Oliveira dos Santos tem 36 anos e é da etnia Mura, disse que foram mais de dez anos de luta para que a pudesse ingressar faculdade.
Com 15 anos atuando na educação infantil e fundamental, o estudante e também professor de 50 anos, Jermano Maia da Silva, do povo Apurinã, resolveu ingressar no curso para ampliar sua área de atuação e lecionar para estudantes indígenas do ensino médio de sua aldeia. Além disso, Jermano pretende fazer parte da secretaria de educação de Manacapuru - município de onde vive - para fortalecer as estratégias voltadas a incentivar a educação dos povos indígenas.
Jermano Maia da Silva, 50 anos, do povo Apurinã, leciona para estudantes indígenas do ensino médio de sua aldeia
“As populações indígenas são muito carente de formação de professores de ensino médio. As unidades indígenas e escolas indígenas só tem até o 5º ano. Nós não temos professores formados para dar aulas após essas séries. Eu já sou professor de sala de aula há 15 anos, estou cursando a faculdade agora para ter mais conhecimento e poder fortalecer o próprio contexto do município, onde as secretariais requerem pessoas formadas.
No entanto, apesar dos avanços conquistados, ainda há desafios a serem superados. Um dos principais obstáculos enfrentados, conforme Rita Floramar, é a falta de financiamento para o curso de licenciatura indígena. A formação de professores indígenas demanda investimentos em estrutura física, materiais didáticos específicos e programas de apoio aos estudantes, para que possam se dedicar integralmente aos estudos.
“Nós ainda precisamos de muito. Muito em termos de financiamento já há um tempo. Isso acaba, às vezes, nos prejudicando. Porque temos várias atividades que a gente chama de tempo-comunidade nas aldeias, mas comunidade e precisamos nos deslocar para isso. Então, a gente acaba tendo essa fragilidade. Mas ao mesmo tempo, a gente sempre diz que é na vitória para a própria universidade que se diz amazônica e que tem 115 anos no coração da Amazônia”.
A presença de professores indígenas nas aldeias tem um impacto significativo na educação dessas comunidades, pois possibilita uma abordagem mais contextualizada e respeitosa da cultura e tradições locais. Além disso, a presença de educadores indígenas nas escolas contribui para a valorização da diversidade étnica e cultural, promovendo a autoestima e o orgulho das comunidades indígenas.
Vale ressaltar que grande parte dos universitários do curso de Formação de Professores Indígenas (FPI) já atuam ou atuaram na educação infantil e ensino fundamental (até o 5º ano).
E esta iniciativa não é somente no âmbito federal, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), no dia 28 de agosto de 2014 formou a primeira turma de professores indígenas com mais de 1.900 profissionais dos 52 municípios do Amazonas para atuar no ensino nas aldeias. E desde então, 20 anos depois, continua neste importante processo de formação de professores indígenas até hoje.
Para o reitor da UEA, Prof. Dr. André Zogahib, é motivo de orgulho, para todos da instituição, poder fortalecer a educação no Amazonas, estado mais indígena do Brasil.