Iniciativa propõe uma experiência inédita na capital amazonense ao ensinar cinema e produção audiovisual a partir da percepção sonora, da memória afetiva e das experiências sensoriais dos participantes
Oficinas realizadas no Sambódromo quebram a lógica (Foto: Junio Matos)
Em uma sala da Biblioteca Braille do Amazonas, celulares, gravações de áudio, sons da cidade e exercícios de escuta ajudam pessoas cegas e com baixa visão a construir suas próprias narrativas no audiovisual.
O projeto “Vozes Visuais” propõe uma experiência inédita na capital amazonense ao ensinar cinema e produção audiovisual a partir da percepção sonora, da memória afetiva e das experiências sensoriais dos participantes. As aulas acontecem na própria Biblioteca Braille do Amazonas, localizada no Bloco C do Sambódromo, na avenida Pedro Teixeira, bairro Flores, zona Centro-Sul de Manaus.
A iniciativa é conduzida pela produtora cultural e psicóloga Keylla Gomes, de 43 anos, que já desenvolveu projetos culturais voltados para pessoas com deficiência, especialmente oficinas de teatro e cinema para pessoas surdas.
“A ideia do ‘Vozes Visuais’ surgiu muito da minha trajetória pessoal dentro da cultura e da inclusão aqui em Manaus”, afirma Keylla em entrevista à reportagem de A CRÍTICA.
Segundo ela, o projeto nasceu de uma inquietação sobre a presença de pessoas cegas nos espaços de produção audiovisual. “Durante esses projetos, comecei a me perguntar: ‘e as pessoas cegas, como estão ocupando os espaços do audiovisual?’”, relata a produtora cultural.
A proposta do curso parte de uma visão diferente da percepção tradicional do cinema, normalmente associada apenas à imagem.
“Sempre ouvi que cinema é imagem, mas para mim cinema também é som, emoção, memória e sensação”, conta Keylla.
Segundo a professora, a experiência busca transformar o som em protagonista das narrativas. “No ‘Vozes Visuais’, o som deixa de ser apenas um apoio da imagem e passa a ser protagonista da narrativa”, explica a idealizadora do projeto.
Durante as aulas, os alunos trabalham com sons do cotidiano, vozes, objetos, silêncio, vento e chuva para construir cenas e atmosferas cinematográficas.
“Os alunos começam a construir cenas através dos sons da cidade, da natureza, das vozes, dos passos, do vento, da chuva, do silêncio e dos objetos do dia a dia. Tudo vira linguagem cinematográfica”, ressalta.
Para o aluno Andres Oliveira, de 44 anos, o curso também ajuda a ampliar a forma como pessoas cegas são vistas socialmente.
“Esse é o outro lado audiovisual, onde a gente pode transmitir as nossas vozes através dos vídeos, cinemas, e onde as pessoas possam ter mais contato e entender cada vez mais o nosso dia a dia, os nossos problemas, que nós não somos invisíveis, nós somos visíveis”, afirma Oliveira.
Segundo ele, o projeto mudou sua relação com o próprio cinema. “Através do projeto eu consigo escutar mais o cinema, identificar as coisas que estão passando, as imagens e tudo, através das vozes, e isso me ajuda bastante”, relata o aluno.
Para a realização das oficinas, o curso precisou adaptar a forma tradicional de ensinar audiovisual.
“O maior desafio é justamente quebrar uma lógica muito visual que existe no ensino tradicional do audiovisual. A gente precisou reaprender a ensinar cinema de uma forma mais sensorial e acessível”, pontua a produtora cultural.
As aulas são pensadas a partir da escuta, da orientação espacial, do toque e da percepção dos ambientes.
“Cada aula é construída pensando na escuta, na orientação espacial, no toque, na percepção dos ambientes e no trabalho coletivo”, explica a educadora audiovisual.
Ela destaca ainda que o processo também envolve adaptações técnicas no uso de celulares e equipamentos de gravação.
“Também existe uma adaptação técnica importante no uso dos celulares, na captação de áudio e na forma de conduzir os exercícios”, declara.
A engenheira Marcelha Kauper, de 48 anos, conta que sempre gostou de cinema, mas não imaginava que poderia participar da produção audiovisual após perder a visão.
“Para mim, eu sempre fui apaixonada por cinema. Tanto é que eu tenho a carteirinha lá do Cinemark. Então, para mim, quando eu fiquei cega, porque eu sou cega total, eu não achava que era possível”, relata a engenheira.
Ela afirma que a proposta do curso inicialmente causou surpresa, mas a experiência ajudou a mudar essa percepção.
“Quando ela trouxe para mim essa ideia de projeto, eu pensei: como pode um cego fazer uma filmagem? Como pode um cego criar roteiro?”, diz Kauper.
“A Keila ensinou técnicas, ensinou jeitos e maneiras diferentes e me fez enxergar que é possível. Então, como eu achava que não era possível, que eu não era capaz, de repente, eu já estou fazendo filme, estou filmando, criei meu próprio roteiro”, afirma.
De acordo com a psicóloga, a experiência tem provocado mudanças na autoestima e no sentimento de pertencimento dos participantes.
“Muitos alunos chegam inseguros, porque cresceram ouvindo que certos espaços não foram pensados para eles. E aos poucos eles começam a perceber que conseguem criar, dirigir, gravar, pensar cenas e construir narrativas próprias”, relata a professora.
O projeto também representa uma oportunidade de inclusão profissional, como afirma Sibele Alves, de 59 anos. “A importância do Vozes Visuais é dar inclusão das pessoas cegas e com baixa visão no mercado, o novo mercado de trabalho”, afirma Alves.
Ela também destaca a importância da oportunidade oferecida pelo curso. “Nós somos capazes, só precisamos ter oportunidade. E essa é uma grande oportunidade que surgiu e a gente vai abraçar com unhas e dentes”, diz.
Alunos utilizam os espaços da Biblioteca Braille do Amazonas para debater e estruturar roteiros coletivos (Foto: Junio Matos)
Ricardo Alves, de 64 anos, relata que, quando perdeu a visão, passou por um período de dificuldade antes de reencontrar novas possibilidades por meio de projetos inclusivos.
mbra Alves, que costuma correr na Vila Olímpica de Manaus.
Participar do “Vozes Visuais” trouxe para Ricardo uma nova perspectiva, além de um impacto emocional significativo.
“Nem nos meus melhores sonhos, eu sonharia em fazer o que eu estou fazendo hoje. Aprender a fazer cinema […] Isso me deu um ânimo, uma alegria muito grande. Hoje eu faço parte desse projeto e estou muito feliz”, conta emocionado.
Para a professora Keylla Gomes, o projeto vai além do acesso ao consumo cultural e busca ampliar a presença de pessoas com deficiência nos espaços de criação artística.
“Esse curso representa inclusão de verdade. Não apenas no acesso ao consumo cultural, mas principalmente no direito de criar, dirigir, produzir e existir artisticamente”, ressalta a professora.
O “Vozes Visuais”, segundo Gomes, busca mostrar que o audiovisual pode ser acessível e diverso. “Acredito muito que a cultura precisa ser um espaço de pertencimento, autonomia e transformação social”, conclui.