Evento em São Paulo reuniu especialistas e líderes de tecnologia, mostrando que a inteligência artificial no Brasil não elimina empregos, mas redefine funções e potencializa colaboração entre humanos e máquinas
Palestra de André Palma, CEO da Zup (Foto: Divulgação)
SÃO PAULO (SP) – O Startse AI Festival by StackSpot, primeiro festival brasileiro dedicado exclusivamente à inteligência artificial, reuniu no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, as principais vozes do setor para discutir o futuro da tecnologia no País. Longe do discurso catastrofista que domina manchetes sensacionalistas, o consenso entre especialistas e líderes empresariais aponta para uma realidade bem diferente: a IA não vai eliminar empregos – ela vai transformá-los. E quem se recusa a evoluir junto com essa revolução tecnológica é que corre o verdadeiro risco de ficar para trás.
O evento trouxe ao palco desde gigantes tecnológicas americanas e chinesas até cases nacionais de sucesso, evidenciando que o Brasil figura entre os maiores usuários de IA do mundo – ao lado de Estados Unidos e China no ranking de adoção de ferramentas como ChatGPT e outras plataformas. No entanto, como alerta Borneli, o desafio não está no uso, mas na aplicação estratégica: "O brasileiro é muito adepto a novas tecnologias, mas a grande questão é o que a gente faz com a tecnologia. No caso da IA, a gente tem que dar um fim objetivo, prático, para extrair dela eficiência, produtividade e competitividade".
(Foto: Divulgação)
A plataforma StackSpot nasceu para auxiliar desenvolvedores a criar código mais rápido e evoluiu para uma solução no-code que permite a qualquer profissional criar agentes de IA para automatizar processos. "Hoje temos quase 700 agentes criados semanalmente para diferentes problemas. As pessoas de negócio estão conseguindo usar a plataforma de forma orgânica porque não exige conhecimento técnico", explica o executivo.
O VP de Engenharia, Arquitetura e Vendas na Zup, Marcos Bonas, observa uma inversão curiosa no processo de adoção: enquanto profissionais de tecnologia – formados em disciplinas estruturadas – precisam "repaginar o raciocínio" para trabalhar com IA generativa, as áreas de negócio e operações demonstram menos resistência.
Se a tecnologia está disponível e acessível, por que muitas empresas ainda resistem? Para Junior Borneli, o problema está na percepção distorcida da velocidade de transformação. "Eu brinquei com a história do paradoxo da janela do avião: a gente olha na telinha e vê 900 km por hora, olha na janela e parece devagar. Não conseguimos perceber a real velocidade da transformação porque estamos embarcados no processo como passageiros", ilustra.
A solução, segundo o empresário, passa por criar "pequenas vitórias" dentro das organizações. "A gente precisa de evangelizadores de IA dentro das companhias para ajudar a criar cultura. O conselho ajuda, mas o que arrasta é o exemplo", defende Borneli, citando a importância de mostrar resultados práticos para vencer ceticismos.
O executivo também derruba outro mito: o de que IA é exclusividade de grandes corporações. "As pequenas e médias empresas têm menos dinheiro para contratar gente, para expandir. Fazer mais com menos recurso é mais possível quando se usa IA. Não é só para grandes, é para todo mundo", enfatiza.
Setores como financeiro, varejo e, especialmente, saúde já colhem resultados expressivos com IA. "O impacto na área da saúde vai ser extraordinário. Pessoas em regiões remotas, sem acesso, poderão ter os melhores diagnósticos e recomendações de tratamento", projeta Borneli.
Mas e o medo do desemprego? Para os especialistas, a resposta está em focar no que máquinas não conseguem replicar. "Tudo aquilo que for humano vai ter cada vez mais valor. Lembra quando dizíamos 'isso foi feito à mão'? O que é feito pelo humano terá muito mais valor do que o feito pela máquina", compara o CEO da Startse. Segundo ele, habilidades como liderança, tomada de decisão, empatia e criatividade se tornarão ainda mais valiosas.
André Palma complementa com otimismo: "Saímos de um hype de que IA vai substituir para uma perspectiva realista e esperançosa de inteligência colaborativa. Não é substituição, é o quanto vamos começar a achar esses espaços de colaboração entre humanos e agentes de IA".
Repórter viajou à convite da Zup