Entrevista da semana

Varíola do macaco: 'maior risco de óbito entre crianças e pessoas com baixa imunidade'

Presidente da Fundação de Medicina Tropical explica os riscos, o tratamento e os cuidados que deve ter contra esse novo tipo de varíola

Waldick Júnior
waldick@acritica.com
19/06/2022 às 07:25.
Atualizado em 19/06/2022 às 07:26

Presidente da Fundação de Medicina Tropical, o epidemiologista Marcus Guerra, explica que a varíola do macaco é mais fácil de ser contida do que a covid (Foto: Divulgação)

A varíola do macaco não deve tomar a mesma proporção pandêmica vista com a covid-19 em razão da baixa transmissibilidade. A afirmação é do diretor-presidente da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Viera Dourado (FMT-HVD), Marcus Guerra. 

Em entrevista para A CRÍTICA, ele, que é médico infectologista, explicou o que já se sabe sobre a doença, as formas de contágio, prevenção e tratamento. Também comentou sobre o surgimento de zooantroponeses (doenças com transmissão do animal para o homem) e a possibilidade de ainda haver vírus desconhecidos em regiões intocadas das florestas, como na Amazônia. 

Quais as principais informações que já temos a respeito da varíola dos macacos?

Essa varíola dos macacos é uma doença já diagnosticada há muitos anos no ser humano, desde os anos 70, e sempre foi endêmica em alguns países da África. Os países que estão na chamada África Ocidental, na costa do oceano Pacífico e na África Central. São infecções que se dão com frequência em animais e foram vistas também em macacos, em laboratórios na Europa. Depois foi vista afetando o ser humano. Quando contamina o homem, a varíola dos macacos é muito semelhante à varíola já extinta na década de 1980, contornada através da vacina. São manifestações que surgem em dois períodos pré-distintos; o primeiro quando a pessoa tem febre, dor pelo corpo, e no segundo, com  o aparecimento das lesões clássicas. Há um inchaço e depois aparece a manifestação da doença pelas lesões na pele, que começam geralmente com uma elevação avermelhada da pele e vão evoluindo simultaneamente.

O que pode explicar esse aumento de casos agora e essa atenção que se deu, apesar de já ser endêmico em regiões do continente africano?

Temos vários países na Europa registrando casos, como Espanha, França, Portugal, Alemanha, Itália, Bélgica, todos registrando casos. Vamos lembrar que esses países tiveram muitas colônias no continente africano e até hoje têm relacionamentos com essas regiões, seja de habitantes ou da economia. Esse surto de agora tem chamado a atenção do mundo.

 A varíola dos macacos, assim como a covid-19, faz parte de um grupo de doenças chamado de zooantroponoses, ou seja, que são transmitidas também de animais para seres humanos. Essas doenças estão surgindo com mais frequência?

Vimos o Ebola em 2016, cuja origem são os morcegos, o coronavírus com três surtos no mundo e agora a varíola dos macacos. Provavelmente o homem está penetrando demais no ambiente dos animais ou diminuindo esse espaço de tal modo que a proximidade tem se tornado um fator importante, preponderante, para o surgimento dessas zooantroponoses.

Temos estudos que atestam o crescimento do surgimento  dessas zooantroponoses? Há alguma pesquisa que mostre, por exemplo, a relação do aumento dessas doenças com a invasão cada vez maior do homem no espaço da floresta?

[Aqui na Fundação] temos um laboratório que pode identificar algum agente infeccioso, mas sempre a partir de uma amostra  clínica que possa aparecer [que já seja conhecida]. Na nossa região, o que temos de pesquisa envolve doenças endêmicas, como a dengue e a febre amarela. Há pesquisas sobre o zika vírus também. O que queremos agora é ampliar o nosso laboratório para diagnosticarmos mais precocemente outras doenças. 

E a relação do desmatamento com o surgimento de novas doenças?

Agora sobre o desmatamento, pode aumentar a chance de nova pandemia por um vírus desconhecido, sim. Existem alguns vírus que foram descobertos pelo Instituto Evandro Chagas, em Belém, dos anos 70 para cá. Esses vírus existem e  circulam na região [amazônica], e é preciso ter um laboratório para relatar e estudar quais medidas podem ser tomadas num possível surto. 

Atualmente há uma apreensão em torno da varíola dos macacos, até porque ainda estamos saindo de uma pandemia traumatizante para todos, então fica a pergunta: essa doença de agora pode chegar a um nível de surto global similar ao que vimos com a covid-19?

Eu diria que é mais difícil, primeiro pela transmissibilidade que é menor que a do coronavírus. Além disso, a varíola dos macacos é mais fácil de ser reconhecida, permitindo um procedimento mais rápido de isolamento das pessoas infectadas. Além disso, eu soube que atualmente há três laboratórios no Brasil que estão trabalhando na identificação e no estudo sobre o vírus.
 
Ainda usando a pandemia como um parâmetro. Durante os picos da covid-19, vimos uma grande demanda nos hospitais em todo o mundo, inclusive no Amazonas. Embora o estado não tenha nenhum caso confirmado até o momento, o senhor avalia que estamos preparados para uma possível alta de casos?

Já temos uma nota técnica elaborada pela Fundação de Vigilância em Saúde na semana passada. Então temos uma orientação para que a porta de entrada [de possíveis infectados] seja nas unidades básicas. Esse documento informa todos os procedimentos a serem tomados, por exemplo, se chegar alguém de regiões com casos confirmados, [como Europa e África].

Esse ponto que o senhor coloca me faz lembrar daquelas barreiras sanitárias que foram muito comuns durante a pandemia. O senhor acha que seria esse o caso se o surto também ocorrer no Amazonas?

Sim, tudo isso vai ser discutido, mas atualmente o Brasil inteiro só tem confirmado três casos. Então, a medida atualmente é orientar o isolamento desses pacientes. 

Quais as semelhanças e diferenças entre a varíola que conhecemos e a varíola dos macacos?

A manifestação clínica é parecida, mas a mortalidade é muito diferente. A anterior causava mais mortes e deixava lesões com cicatrizes, principalmente na fase, porque geralmente começa no rosto e se estende para o corpo. Tanto que na minha época algumas pessoas com essas cicatrizes eram chamadas de “cara de bexiga”, porque ficava um monte de furadinho maior que as lesões da acnes. E essa dos macacos quase não faz isso. 

A OMS apontou logo no início desse surto que os casos haviam sido identificados expressivamente também em homens que fazem sexo com outros homens. O que explica isso?

Eu não consegui encontrar, mas as pessoas disseram que esse surto na África surgiu após a realização de dois grandes eventos. Além disso, tem se visto lesões nas genitais de homens que fazem sexo com outros homens e que foram diagnosticados com a doença, mas isso não é algo para se levar em consideração no que diz respeito à suscetibilidade. Um contato mais íntimo promove maior possibilidade de adquirir a doença.

Essa questão de se colocar um grupo de risco ou grupo “mais afetado” é bem delicada porque pode levar a população a acreditar que a doença só afeta determinadas pessoas. Apenas para que tenhamos clareza, a varíola dos macacos pode afetar qualquer pessoa, certo? 

Isso. Não tem nada a ver. Nesse caso especificamente dos homens que fazem sexo com homens, não há qualquer relação de suscetibilidade apenas por terem determinada orientação sexual.  O que se tem é maior risco de óbito entre crianças e pessoas com baixa imunidade, que podem desenvolver quadros mais graves. 

Aproveitando esse ponto da transmissão, como ocorre?

A transmissão da doença se dá pelo contato intimo com as pessoas. Pode ser pelas gotículas, mas principalmente pelo produto da lesão, que é altamente infectante. Passa também pelos materiais que a pessoa saudável usa, como lençóis e toalhas de uma pessoa infectada. A doença tem um período de encubação de  5 a 21 dias, mas frequentemente a manifestação se dá num período intermediário desses dias, 8 a 14 dias, e todas as pessoas que adquirem a doença vão ser possíveis  infectantes.

Temos uma vacina que está sendo produzida para a varíola dos macacos. Que tecnologia é utilizada?

É o mesmo sistema da vacina da covid-19, tanto que não é muito fácil cultivar o vírus da varíola, e ela leva também um perigo de manipulação. Por exemplo, o vírus da varíola ainda é mantido em laboratórios de altíssima segurança para que não seja liberado na natureza pela mortalidade que pode causar. Mas além dessa, a própria vacina contra a varíola já conhecida confere alguma imunidade contra a dos macacos também. 

Sobre o tratamento para essa nova doença. Como é feito e quanto tempo dura?

Geralmente dura três semanas de manifestação da doença e o tratamento é todo sintomático no momento, porque ainda não existe um antiviral, embora esteja sendo trabalhado.  Temos que levar em conta também que como é um surto, não uma doença de longa permanência, os laboratórios não trabalham muito em um novo medicamento porque se fizer um estoque grande não vão vender quando os casos diminuírem. 

Pensando em dicas para a população em geral, como prevenir a doença? A máscara ajuda?

 A prevenção é não usar itens de uso pessoal de uma pessoa com a doença. Também evitar contato íntimo com pessoas que aparentam  ter lesões no corpo. As máscaras já estão usando para a covid-19 e ajudam para a varíola dos macacos porque você pode inalar partículas virais e se infectar.

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