Pesquisa mostra que apenas 12% dos entrevistados afirmaram que seus ganhos aumentaram nos últimos 12 meses
Estudo mostra que 69% dos manauaras disseram ter recorrido a atividades extras para complementar o orçamento (Foto: Junio Matos)
A Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades, lançada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec e a Fundação Grupo Volkswagen, mostra como a população de Manaus e outras nove capitais brasileiras percebe a própria realidade em temas centrais como renda, moradia e escolaridade.
O estudo ouviu 3.500 pessoas com acesso à internet em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia, entre dezembro de 2024 e julho de 2025.
Entre as dez capitais, Manaus se destaca negativamente no cenário econômico. Apenas 12% dos entrevistados afirmaram que sua renda aumentou nos últimos 12 meses, enquanto 38% relataram queda – o saldo mais desfavorável do levantamento.
Além disso, 69% dos manauaras disseram ter recorrido a atividades extras para complementar o orçamento, índice que coloca a cidade entre as mais afetadas do país, ao lado de Belém (70%) e Fortaleza (65%) . Os chamados “bicos” mais frequentes envolvem serviços gerais como faxina, manutenção e jardinagem, além da revenda de produtos, pequenos trabalhos de beleza e vendas de roupas usadas.
Essa dependência da economia informal ajuda a explicar por que a sensação de vulnerabilidade é tão forte: 66% da população de Manaus acredita que a fome e a pobreza aumentaram na cidade no último ano.
Custo de vida
A pesquisa também levantou quais despesas mais impactam o bolso dos entrevistados. Em Manaus, alimentação aparece em primeiro lugar (83%), seguida por saúde (60%) e moradia (47%). O dado mais expressivo é o peso do transporte (42%), mais alto que em outras capitais e reflexo direto das grandes distâncias urbanas, da dependência do transporte coletivo e dos altos custos com combustíveis.
Esses fatores contribuem para que muitas famílias tenham de rever hábitos de consumo. Em Manaus, uma proporção maior que a média nacional relatou reduzir o consumo de carne, arroz, feijão e laticínios no último ano, compensando com aumento no consumo de ovos, uma proteína mais acessível.
Avanços Parciais
Apesar das dificuldades financeiras, a população manauara também percebe avanços. Quase metade dos entrevistados avalia que sua condição de moradia melhorou nos últimos cinco anos, e 46% disseram ter conseguido aumentar o grau de instrução nesse período.
Quando comparados aos pais, 71% dos manauaras afirmam ter alcançado maior nível de escolaridade, enquanto 47% dizem viver em moradias melhores que as da geração anterior. Ainda assim, apenas 45% relatam ter renda superior à dos pais na mesma idade, reforçando a ideia de que a educação, sozinha, já não garante ascensão socioeconômica.
Expectativas
Em relação às medidas necessárias para enfrentar a fome e a pobreza, a resposta em Manaus é clara: 79% defendem a criação de políticas de garantia de emprego. Também aparecem como prioridades a redução das contas básicas, como energia e água, e o fortalecimento da rede de assistência social.
Os resultados revelam um paradoxo: embora parte significativa dos entrevistados relate que a renda se manteve estável ou aumentou, a percepção generalizada é de que a fome e a pobreza cresceram no último ano.
Para Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis, isso mostra a urgência de uma melhor distribuição de renda para reduzir o abismo que separa os brasileiros.