MANAUS 356

Manaus redescobre o Centro com movimento de reocupação movido pela cultura

Produtores culturais, como João Fernandes, do Casarão de Ideias, e Michel Guerrero, do projeto Cine Carmen Miranda, impulsionam a reocupação do Centro de Manaus.

Robson Adriano
25/10/2025 às 17:39.
Atualizado em 25/10/2025 às 19:40

Mais que uma sala de exibição, o Cine Carmen Miranda, projeto do ator Michel Guerrero, retorna para mais um capítulo na cena audiovisual de Manaus. (Foto: Daniel Brandão/AC)

Manaus vive um movimento de reocupação e requalificação do Centro Histórico. Essa ocupação de espaços tem sido impulsionada por produtores culturais, que mobilizam agentes da cultura, empreendedores criativos e a própria população a se reconectar com a identidade urbana da cidade e assumir protagonismo nesse processo. Mais que uma sala de exibição, o Cine Carmen Miranda retorna para mais um capítulo na cena audiovisual de Manaus.

Inaugurado em 1986 com 150 lugares, o cinema localizava-se na avenida Joaquim Sarmento com a rua 24 de Maio, e fechou 1992. Hoje, o cinema retorna ao Centro de Manaus, ao lado da Praça do Congresso. Em 1987, aos oito anos, o diretor e ator Michel Guerrero trocava os cartazes do antigo cinema — fase retratada no documentário que dirigiu em 2020. A memória afetiva foi o ponto de partida para o projeto Cine Carmen Miranda, viabilizado por meio de leis de incentivo à cultura do Governo Federal.

“Eu era o trocador de cartazes oficial do Cine Carmen Miranda. Eles produziram um banco gigante, e eu era baixinho, e subia no banco para a troca de cartazes toda a semana. Eu era um colaborador. E eu fiquei muito triste quando fechou, nos últimos anos o Carmen Miranda passava filmes eróticos”, relembra Guerreiro que assumiu ter assistido “Ghost - Do Outro Lado da Vida” mais de 50 vezes no Carmen Miranda. O filme ficou em cartaz por 28 semanas em Manaus em 1990.

O projeto de Guerreiro é um resgate histórico.

“Quando eu pensei nesse projeto, queria fazer um resgate dos cinemas do Centro de Manaus, dessa memória das décadas passadas. A minha memória são desses cinemas das décadas de 80, mas se pararmos para ver tem tantas outras memórias de pessoas que viveram outras trajetórias com o cinema. São histórias tão lindas como a minha, com lembranças, reminiscências e poesias”, disse o diretor de teatro.

O cinema retorna ao Centro de Manaus, ao lado da Praça do Congresso. Guerrero, aos oito anos, em meados da década de 80, trocava os cartazes da antiga sala de cinema. (Foto: Daniel Brandão)

Novos Espaços

Para Guerreiro é preciso fomentar novos espaços.

“O poder público não está dando conta nos últimos anos das próprias iniciativas. Então, nós, produtores culturais, precisamos escoar novos projetos para que a cidade não fique dependente ou deficiente do poder público. As verbas que nos respaldam vem do Governo Federal, mas, cadê o dinheiro da Manauscult e da SEC? Se não fosse a Lei Aldir Blanc ou a Lei Paulo Gustavo, como estaria o nosso cenário?”, questionou.

Em direção ao segundo ano, o projeto Cine Carmen Miranda tem entrada gratuita para 50 lugares.

“Esse gratuito garante o acesso das pessoas ao cinema. O cinema tem uma filosofia ‘de portas abertas’. A entrada é liberada. No shopping se paga muito caro. Estou muito feliz porque o projeto está sendo abraçado por parte da comunidade. Boa parte das pessoas que frequentam são jovens, senhores, casais e estudantes”, disse Michel.

Confira a programação semanal no @carmenmirandacine.

Ideias de um casarão

As ideias que surgiram de um prédio, situado na rua Barroso, despertaram novamente a vontade de frequentar o Centro. Com 15 anos de fundação, o Centro Cultural Casarão de Ideias (CCCI), é responsável por reocupação cultural.

João Fernandes, diretor do Centro Cultural Casarão de Ideias. Precursor do movimento de reocupação cultural do Centro de Manaus. (Foto: Daniel Brandão)

“O casarão surge na ausência de espaços de ocupações culturais. O Casarão surge para tentar dar um novo desejo das pessoas voltarem a frequentar o Centro e consumir cultura”, declarou João Fernandes, diretor do Casarão de Ideias.

A Escola Estadual Saldanha Marinho, situada na rua homônima, foi tombada em 1988 como Monumento Histórico do Estado. Agora, o prédio passa por uma reforma para ser a nova sede do CCCI. O lugar deve contar com cinema, mirante, galerias e potenciais culturais. A inauguração está prevista para fevereiro de 2026. Para João, uma cidade é feita de história, memória e afeto. E a edificação devolverá esses sentimentos a Manaus.

“As ocupações também ressignificam o lugar. O prédio tem uma construção histórica. Tem uma história que precisa ser recontada. E quando ocupamos essas edificações com arte, novo pensamento e acesso livre, meio que ocorre uma reparação. O Centro é isso e estamos no ‘boom’. Hoje se vê os bares e a pessoas ‘ah, estamos dando vida ao Centro’. O Centro sempre teve uma vida gigante, mas estava apenas desconectado”, ponderou Fernandes.

O Casarão de Ideias, na rua Barroso, tem duas salas de cinema, biblioteca, galeria, livraria, sala de espetáculo, ateliê, sala multiúso e os cafés. O lugar recebe, aproximadamente, 250 pessoas por dia. Cerca de 15 mil pessoas compareceram no “Te Encontro na Barroso”. Na programação ainda consta o “Festival Literário”, o festival “Cine Casarão” e para novembro, o retorno do festival de dança “Mova-se”. Na avaliação do diretor, a população quer está no Centro de Manaus.

- A população é louca para estar no Centro - declarou Fernandes em entrevista ao A Crítica. (Foto: Daniel Brandão)

“A população é louca para estar no Centro. Temos públicos diversos. Falta oferecermos mais. Agora, querem encontrar segurança. É importante que a população chegue e saia bem. É pensar no todo e no entorno. O poder público precisa fazer uma parte e todo restante faz, para somar os esforços. Acredito que a população tem um carinho pelo Centro. Mas batem nessas questões: qual é a programação? Serve para todos? E se vão se sentir seguros”, ponderou.
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