O Metaverso

O metaverso não tem resíduos líquidos ou sólidos, mas pode abundar em uma esgotosfera terrivelmente perigosa

Marcus Lacerda
Marcus Lacerda
08/01/2022 às 14:32.
Atualizado em 24/03/2022 às 21:45

Há muitos anos, o atual governador do Estado de São Paulo, João Dória, apresentava um programa de entrevistas com grandes empresários, aos domingos à noite. Em um deles entrevistou Antônio Hermínio de Moraes. Para descontrair, Dória perguntou se o empresário continuava com a mania de não querer viajar, o que consternava a esposa. Ele disse que sim, mas que viajava nos livros, por isso não havia a necessidade de sair de casa para conhecer o mundo. Antônio Hermínio definira, de forma visionária, o ‘metaverso’.

Não paira nenhuma dúvida sobre o impacto da pandemia de Covid-19 sobre nossa capacidade de viver em um universo digital paralelo. Nossos filhos, sem qualquer conceito mais elaborado, já vivem dentro de seus quartos, interagindo com o mundo lá fora. A melhor qualidade do aparato tecnológico, incluindo uma internet 5G, com promessa de ser cem vezes mais rápida do que a atual, já redesenha, há décadas, um mundo onde nos divertimos, fazemos negócios, temos relações sociais e conhecemos nossas esposas. Portanto, engana-se quem pensa que o metaverso é uma novidade, ele já existe e está cada dia mais próximo de nós.

Impossibilitados de nos deslocar durante a pandemia, não deixamos de fazer nenhuma reunião importante. Ao contrário, os congressos médicos virtuais contam agora com especialistas de todas as partes do planeta. Não existem mais cancelamentos de voos, atrasos na alfândega ou vistos vencidos que nos impeçam de conhecer as experiências dos melhores profissionais.

O que se tenta vender agora é uma experiência mais confortável para o corpo, com óculos 3D, poltronas que simulam movimentos e luvas que nos dão as mesmas sensações de tocar o corpo de uma jovem em Bancoc. Já existem ‘terrenos’ à venda no metaverso. Podemos construir casas ou lojas, em cidades programadas. Podemos comprar diversão, ter amigos em cada metrópole, com a vantagem de usarmos avatares que escondem nossas rugas faciais e nossas barrigas. Ali, no metaverso, podemos escolher quem queremos ser de verdade, nos livrando desta casca imposta pelos genes intransigentes. Seremos cidadãos trans, considerando que nunca estivemos à vontade, de fato, no nosso corpo físico. Dermatologistas e cirurgiões plásticos que se cuidem.

Mas também se engana quem acredita que estaremos livres dos agentes infecciosos. O vírus, na informática, é tão antigo quanto o primeiro computador, assim como antivirais (mais conhecidos como antivírus). De origem natural, ou criado em laboratório, o metaverso estará sujeito a grandes e ainda mais devastadoras pandemias digitais. O universo que conhecemos evoluiu ao longo de centenas de bilhares de anos, com erros e acertos que nos permitiram chegar até aqui. A tendência do metaverso é ser tão imperfeito quanto sua idade.

O grande e maior erro dos humanos será acreditar em uma realidade mágica, como se o metaverso fosse imune às malandragens próprias da nossa espécie. O metaverso não tem resíduos líquidos ou sólidos, mas pode abundar em uma esgotosfera terrivelmente perigosa. Sem leis ainda definidas, este universo que não segue as leis da física pode até nos permitir voar ou mergulhar com golfinhos, em uma praia do Caribe, mas é difícil acreditar que não haverá tempestades com raios e trovoadas. Para escapar delas, um clique fácil em um canto da tela, onde autorizamos o débito automático em nosso cartão de crédito.

Como dizia um bom professor, desses que não existem mais, nem toda doença contagiosa é causada por um agente infeccioso. Quem fuma ou usa outras drogas ilícitas aprendeu isso, necessariamente, com outra pessoa. Assim como o tabagismo é contagioso, os desvios éticos de uma sociedade também são. Não são por acaso as simultâneas ondas de autoritarismo pelo planeta.

O metaverso, em resumo, é o ambiente mais propício ao contágio pelas melhores e pelas piores ideias. Nada nas doenças infectocontagiosas já se comparou ao que vem por aí. E nós, que achamos, por muito tempo, que as doenças de veiculação aérea eram as que se espalhavam mais rápido.

 

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