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Editorial

A revolta estouro

04/06/2018 às 22:28 - Atualizado em 04/06/2018 às 22:53
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Região tradicionalmente tratada como laboratório de atos eleitorais e eleitoreiros, a Zona Leste de Manaus reagiu à ausência do Estado e ao drama que há uma semana enfrenta com a greve dos trabalhadores do transporte público. A revolta estourou. Ônibus danificados, confrontos com policiais, gente machucada e assustada, impedida de ir e vir. A greve dos rodoviários é o estopim mas a ela se misturam as necessidades amontoadas de uma população vítima dos mais elevados índices de violência urbana, da precarização dos serviços públicos e da não disposição governamental para atender as reivindicações há muito feitas pelos moradores daquele lugar.

Há muito anos, a população da Zona Leste, a segunda com maior densidade de moradores e aproximadamente 300 mil eleitores (dados de maio deste ano) é tratada como mercadoria de pouco valor. Sofreu e sofre as consequências de uma política de abastecimento de água que a ignorou por longo período; com a precária oferta de ônibus sendo submetida às regras de grupos paralelos que exploram serviços alternativos de transporte de passageiros; com a precariedade da iluminação pública; e a expansão da violência generalizada.

É por conta dessas características socialmente construídas que a população também se tornou objeto de desejo de candidatos a cargos eletivos para o governo estadual, prefeitura de Manaus, Câmara Municipal, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado. Os votos dos eleitores da Zona Leste podem virar o jogo e assegurar mandatos. Nesses momentos, a região é cobiçada e para as famílias que ali residem são feitas promessas de várias ordens que serão, no pós-eleição, esquecidas.

As revoltas de moradores da região têm sido o principal instrumento para dizer basta! O que ocorreu ontem é mais um capítulo dessa resistência de moradores que sufocados por tantos problemas e nenhuma solução reagem e tentam chamar atenção aos poderes instituídos a fim de que façam alguma coisa efetiva. Que desta vez, a ação de manipulação de pretensos candidatos a cargos eletivos possa ser percebida e barrada para não repetir o passado quando, nessas revoltadas, alguns candidatos se beneficiaram da insatisfação popular, conquistaram mandatos e passaram a ser parte do poder que submete e mantém milhares de famílias da Zona Leste à subcondição de vida.