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Editorial

A volta da escravidão

18/10/2017 às 21:19
Show trabalho escravo

A poeira sobre a extinção - já cancelada - da  Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na floresta amazônica, mal baixou e o governo federal já se vê às voltas com outra medida que, de tão estranha, coloca o País novamente sob os holofotes internacionais. O decreto do Ministério do Trabalho que altera os procedimentos de combate ao trabalho escravo não apenas dificulta, mas praticamente inviabiliza as ações de repressão a essa prática que coloca o Brasil, em pleno século XXI, no vergonhoso ranking do trabalho escravo no mundo.

Tão vergonhoso como preocupante: entre 198 países, estamos na 33ª pior posição, muito próximo da categoria de “risco extremo”.

Se a situação é tão delicada, o que leva o governo a tomar medida tão desastrosa e que foi comemorada apenas pela bancada ruralista do Congresso Nacional? Exatamente lá, entre os parlamentares, está a motivação do governo para tal decreto. Está claro que Michel Temer negociou votos a seu favor na Câmara dos Deputados em face da segunda denúncia apresentada contra ele. Deputados ligados ao agronegócio comemoraram, assim como todos os empregadores do País que não têm vergonha de lucrar às custas de trabalho análogo à escravidão. A estratégia funcionou. Com boa vantagem, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) aprovou o relatório que propõe a rejeição da denúncia contra o presidente. A análise da denúncia deve ter o mesmo desfecho da primeira, e Temer seguirá no poder; mas a que custo para o País?

Ontem, como era de se esperar, foi forte a reação dos fiscais do trabalho, que paralisaram as atividades em pelo menos 21 Estados em protesto contra a portaria 1.129. Artistas também se manifestaram nas redes sociais, condenando a medida. Cantores como Caetano Veloso, Diogo Nogueira e Nelson Sargento compartilharam uma imagem do movimento 342 Artes: “Temer passou dos limites”. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também usou sua página no Facebook para criticar a portaria do Ministério do Trabalho, classificando-a como um “retrocesso inaceitável”. Se seguir o modus operandi adotado até agora, o governo vai esperar para ver a extensão da reação. Caso ela se mantenha, o Ministério do Trabalho, provavelmente, vai emitir nota dizendo que foi mal interpretado e sustará a medida. Isso num cenário otimista.