Segunda-feira, 28 de Setembro de 2020
Editorial

Alimentos mais caros


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11/09/2020 às 08:34

Os motivos para a atual alta nos preços de alguns produtos da cesta básica são bastante conhecidos dos especialistas: dólar alto incentivando exportações e reduzindo a oferta interna, e aumento do consumo causado pelo auxílio emergencial nas classes baixas. O problema é que esse cenário segue imprevisível. O comportamento do dólar nos próximos meses é uma incógnita. Além disso, a demanda internacional por alimentos, principalmente na China, só tende a crescer à medida que os mercados se recuperam dos impactos da pandemia. É a lógica cruel do mercado liberal: a elevação nos preços dos alimentos no Brasil é uma resposta natural a um contexto complexo.

Também é um teste de peso para as convicções liberais do governo brasileiro, que zerou imposto de importação na tentativa de reabastecer o mercado interno. Problema: não há nenhuma garantia de que isso tenha efeitos práticos nos preços finais ao consumidor. Historicamente, reduzir tributos incidentes sobre os alimentos apenas aumenta o lucro dos comerciantes, que não repassam a vantagem aos preços enquanto houver demanda aquecida. Apelar ao “patriotismo” dos atacadistas e varejistas, pedindo que a margem de lucro de itens como o arroz seja reduzida a zero, apenas revela um misto de ingenuidade e desconhecimento. 

O mesmo acontece com os preços dos combustíveis, por exemplo. Recentemente, a Petrobras promoveu sucessivas reduções nos preços da gasolina nas refinarias. Porém, mesmo comprando mais barato, as distribuidoras, e consequentemente, os postos, mantiveram os preços nos mesmos patamares, ampliando seus lucros em detrimento do consumidor. 

Por enquanto, a alta observada nos alimentos é vista como algo localizado e sem grandes riscos à estabilidade econômica e à política de juros. Mas esse fenômeno precisa ser observado com muita atenção, pois é uma peça relevante na complexa engrenagem da economia e pode ter consequências imprevisíveis quando associado a outros fatores em cenário de recessão. Um dos riscos é a contaminação inflacionária, onde os preços dos alimentos acabam influenciando outros segmentos da cadeia de consumo, pressionando ainda mais os preços, desvalorizando a moeda e reduzindo o poder de compra da população, sobretudo nas camadas mais pobres.
 


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