Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
Editorial

Censura nunca mais


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10/09/2019 às 08:22

Há pouco mais de quatro décadas, o controle sobre a mídia e manifestações artísticas como teatro, cinema e literatura era feito de forma ferrenha pela ditadura militar. Não poderia ser publicado nada que tivesse caráter "subversivo" ou que motivasse críticas ao regime. Esse tempo, felizmente, passou e a livre manifestação do pensamento foi sacramentada em 1988, com a promulgação da atual Constituição. A Carta Magna é explícita no artigo 220, quando declara que "a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição". E complementa no parágrafo 2º: "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística".

A tentativa de censura promovida pela Prefeitura do Rio de Janeiro no último final de semana, ao tentar recolher publicações na Bienal do Livro é sintomática de uma onda conservadora repleta de exageros. A ação da Prefeitura do Rio foi desproporcional e gerou uma reação equivalente. Tudo ocorreu por causa de um quadrinho, um único quadrinho em uma obra com mais de 200 páginas. É preciso ressaltar que a graphic novel "Vingadores, a Cruzada das Crianças" não é uma publicação de cunho LGBT. Trata-se de uma aventura dos Novos Vingadores, equipe de jovens super-heróis do universo Marvel. Ocorre que dois personagens são  homossexuais e isso é mostrado com naturalidade na obra, como deveria ser encarada a sexualidade de qualquer pessoa. O foco principal é a aventura dos heróis em si contra o vilão da vez. Não há pornografia, não há nudez nem qualquer elemento que justifique envolver o livro em plástico preto, como sugeriu a Prefeitura.

O detalhe do beijo entre os personagens foi ignorado desde que a HQ foi originalmente publicada há quase dez anos. Mas foi o bastante para escandalizar o prefeito e motivar um típico tiro no pé. A cena de agentes públicos adentrando um espaço de difusão cultural com a intenção de recolher livros foi assustadora. Felizmente, a reação contra a censura foi imediata, o livro foi rapidamente esgotado na Bienal e o caso fomentou um debate necessário sobre liberdade cultural nos dias de hoje. O poder público precisa combater o desemprego, a falta de moradia, de saneamento... não os livros, afinal, como disse Monteiro Lobato: um país se faz com homens e livros.


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