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Editorial

Cidadania a bordo

22/01/2017 às 20:27
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O Amazonas tem uma das maiores populações ribeirinhas do Brasil. São milhares de pessoas que vivem nas margens e proximidades dos rios e sobrevivem da pesca artesanal, da caça, do roçado e do extrativismo. Mais de um quarto da população do estado é formado por ribeirinhos em pequenas comunidades rurais espalhadas pela imensidão amazônica. Para essas pessoas, o termo “marginal” se aplica com diversos sentidos. Eles não apenas vivem na margem dos rios, mas, frequentemente, também à margem do estado, sem acesso garantido a vários direitos fundamentais, isolados pela distância da capital. É comum que crianças fiquem vários anos sem certidão de nascimento, sem vacinas ou qualquer assistência à saúde.

Para o poder público, o atendimento a essa população é um grande desafio. Como levar saúde, capacitação profissional e mesmo cidadania a comunidades tão longínquas? Algumas iniciativas tiveram bastante êxito ao utilizar embarcações especialmente adaptadas para levar serviços que, de outra forma, seriam inacessíveis. Uma dessas iniciativas são os barcos  PAI (Pronto Atendimento Itinerante), que percorrem o interior levando assistência médica, emissão de documentos, ações sociais e uma série de outros serviços. Três embarcações estão sendo reformadas para reforçar o programa e devem começar a navegar em março, inicialmente nos municípios das calhas do Juruá, Purus e Solimões. Outra será adaptada para funcionar como delegacia móvel, uma ótima ideia, e deve ficar pronta em outubro.

Apesar de óbvio, o uso de embarcações para atendimento da população ribeirinha ainda é tímido diante das necessidades do interior. Além do programa PAI, merecem destaque as ações itinerantes do Senai, que mantém barco-escola há muitos anos; e de alguns bancos, que perceberam o potencial da clientela do interior e montaram agências fluviais. Fora isso, o que há são ações isoladas de prefeituras e ONGs.

As iniciativas em andamento são muito importantes, mas  precisam ser ampliadas. O uso dos barcos para levar inclusão social deveria ser uma política permanente, com muito mais embarcações navegando, de modo que a chegada dos barcos nas comunidades não fosse uma surpresa.  Outros serviços podem ser disponibilizados por meio de barcos, reduzindo o isolamento de milhares de famílias e integrando-as, de fato, à sociedade. As possibilidades são inúmeras. O rio não deve ser visto como uma dificuldade logística. É o meio de vida de muitas comunidades, onde as pessoas podem ter mais qualidade de vida se o rio for utilizado com inteligência.