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Editorial

Crise e privilégios

03/12/2018 às 07:09 - Atualizado em 03/12/2018 às 07:25
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A crise econômica brasileira é colocada como um dos assuntos de difícil compreensão menos por incapacidade da população para compreender o tema e mais pelos atos e discursos das autoridades na defesa dos próprios interesses que costumam ser traduzidos em garantia de recursos a eles próprios. No Congresso Nacional, a ajuda de custo a parlamentares chama atenção pelo volume disponível, incluindo aqueles que possuem moradia em Brasília e que, naturalmente, deveriam ficar fora do alcance do benefício.

No Senado, senadores reeleitos e eleitos receberão no total de 58, em 2019, a título de ajuda, R$ 3,64 milhões. A medida que garante aos senadores o repasse desses recursos foi editada para compensar o fim do 14º e 15º salários. Os pagamentos extras aos membros do Congresso Nacional produziram manifestações de protesto e pressão tamanha que esses privilégios foram extintos, mas, efetivamente, mantidos com outro nome, o de auxílio-moradia. Da mesma forma que os juízes dispõem de auxílio, amplo geral e irrestrito para a moradia ainda que atuem na mesma cidade em que têm moradia própria, por vezes até mais de uma.

As vantagens pagas aos integrantes dos três poderes contrastam com o discurso de crise econômica no País e a necessidade de cortar recursos de programas sociais, das universidades e da ciência e tecnologia. Contrasta igualmente com as decisões de congelar por vinte anos a verba destinada aos investimentos públicos e salários dos servidores já defasados. A lógica ora posta em prática revela o nível de descaso governamental com as reais necessidades da população brasileira ao mesmo tempo em que estabelece garantias para manter os vencimentos e vantagens do judiciário e do legislativo atualizados.

Tais atitudes soam como provocação. Pior, a indicação é que esse mesmo comportamento será mantido e ampliado para mais uma categoria, a dos militares, tornando a isonomia um blefe completo. Os privilégios mantidos a legisladores e membros do judiciário poderão produzir confrontos, em pouco tempo, diante do arrocho a que a maioria dos trabalhadores e, consequentemente, a população estão sendo submetidos em nome do controle dos gastos públicos. O que fica exposto, apenas nestes dois casos, é que o pagamento pela crise será feito por aqueles que sempre são obrigados a arcar com o ônus da crise. Se colocados outros setores beneficiados, o quadro é ainda mais dramático.