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Editorial

Crise política e pragmatismo político

05/04/2018 às 21:06
Show assembleia

A performance de parlamentares e dirigentes partidários nesta etapa de troca-troca é a expressão que melhor explica o modelo doente de fazer política no País e como este permanece vigoroso. Alguns, mobilizados por eventos internacionais, trocaram os nomes das siglas ou abandonaram a expressão partido, como indicação de que algo novo está sendo apresentado aos eleitores e à sociedade. Não há novidade nesse campo e sim repetição de gestos e velhos pensamentos que alimentam a moldagem político-partidária aos seus vícios mais perniciosos.

O que está a amostra é o alto grau de pragmatismo. A questão gira em torno de qual sigla o candidato se abrigará para ter mais chance de conquistar o mandato. Não importa o partido e o que o perfil que o torna ativo e sim o projeto de manutenção de poder via o mandato. Nesse fim de prazo para fazer a troca de legenda, o principal recado deixado pelos políticos é que os brasileiros necessitam enfrentar a urgência de uma reforma política pautada de fora para dentro sob a pressão e a vigilância das organizações sociais. Caso contrário, o que hoje está em crise profunda tende a se aprofundar e ampliar o fosso a partir de mecanismos de usurpação de direitos e da imposição de uma ideia de fazer política.

O exercício da política via parlamento é experiência positiva na história da humanidade. Entretanto, quando assume o perfil que ora o Brasil ostenta torna-se uma ameaça. Do balcão de negócios diversos, a partir dos mandatos conquistados sob uma sigla e apropriados individualmente, à formação de grandes bancadas que atuam dentro dessa lógica, o fazer política revela-se prática desrespeitosa e uma afronta aos dilemas e sofrimentos do povo brasileiro. Há nesse âmbito um guarda-chuva gigantesco de autoproteção que é manipulado pelo parlamento de acordo com os seus próprios interesses. A distância entre o exercício político-parlamentar daquilo que constitucionalmente o caracteriza e da covinculação com os eleitores está cada vez maior e mais descaracterizada.

A ideia de que diante do que ora ocorre no País iria implicar numa conduta mais cuidado dos parlamentares está diluída. Os elementos decisórios para justificar o troca-troca demonstram que a regra vigente é ‘vale tudo para manter o posto’.