Terça-feira, 14 de Julho de 2020
Editorial

Dedo na ferida aberta


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29/06/2020 às 08:00

O fator Amazônia irá caminhar nas ações governamentais brasileiras e testará as intenções do governo federal e dos governos estaduais. A carta do grupo de investidores endereçada, há uma semana, às embaixadas do Brasil nos Estados Unidos, França, Noruega, Reino Unido, Holanda e Suécia é um posicionamento com elementos novos e peso econômico expressivo. São 29 representantes de empresas de nove países que movimentam 3,7 trilhões de dólares.

Parcela desses recursos vem para o Brasil com o compromisso do governo brasileiro implantar e fazer funcionar políticas que protejam a Amazônia e os povos indígenas não isolando-os e sim articulando outras possibilidades sociais, ecológicas e econômicas que considerem os direitos humanos dos indígenas e das populações tradicionais. O desenvolvimento pregado pelo governo insiste na utilização de projetos que estão na contramão das exigências planetárias, dos pactos internacionais, muitos deles assinados pelo Brasil e que vêm sendo grosseiramente ignorados.

A gestão ambiental há algumas décadas ganhou importância estratégica em vários países do mundo e nos consórcios multilaterais de governos e de grupos empresariais. Nesse espaço, o Brasil vinha se colocando como referência ao implementar ações que se comprometiam com redução do desmatamento na Amazônia e desenvolvimento de uma política indigenista resultante das interações feitas com os povos indígenas e suas organizações representativas. O que ocorre e o que se coloca para o amanhã é a supressão dessa postura governamental e o avanço de projetos de exploração de recursos do bioma amazônico que não consideram as especificidades da região como valor agregado e sim um problema a ser extirpado. Nessas especificidades, de água, flora, fauna, fármacos estão diretamente ligados os povos indígenas, vítimas primeiras de uma política realizada pela violência ampla.

Se é o viés econômico que impõe as principais ações dos governos no mundo e irão implicar na política desses governos, a carta dos investidores ao governo do Brasil não deveria ser tratada pela ironia e tentativa de descredenciamento. O governo arrisca-se a ser isolado ou apostar todas as suas fichas com grupos empresariais cuja reputação está sob suspeita sejam eles do Brasil ou dos EUA e que têm atuação truculenta para garantir seus negócios. A Amazônia estabelece, no mundo, conflitos que se não considerados levar o governo brasileiro aos tribunais internacionais. Não é ingerência externa em assuntos internos, e sim dimensões de governabilidade que foram construídas em décadas de confrontos mundializados.
 


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