Publicidade
Editorial

Democracia não aceita motins

08/02/2017 às 22:36
Show editorial03333

No clássico “Ovo da Serpente”, de 1977, o cineasta  Ingmar Bergman mostra os primórdios do regime nazista e sua fixação pela ideia de uma raça superior sobre a outra, tudo isso tendo como pano de fundo uma clínica que faz experiências médicas num bairro simples de uma Berlim pacificada. A metáfora é clara, as piores experiências humanas sempre começam com uma aparência inofensiva - como o ovo das serpentes - que se transforma a medida em que vai tomando corpo e dimensão.

Pois há dois anos vimos o ovo da serpente sendo chocados por policiais militares que foram às urnas eleger as chamadas “bancadas da bala”, hoje trincheiras para motins que até ontem estavam circunscritos ao Espírito Santo, mas que ameaçam agora se espalhar por outros Estados brasileiros - Minas Gerais começa hoje, por exemplo.

As polícias militares são consideradas forças auxiliares das Forças Armadas e, por isso, executam um serviço público essencial que não pode ser descontinuado sob nenhum motivo. Nesse aspecto, a Constituição Brasileira é clara ao dizer que movimentos da natureza vista no Espírito Santo são motins, rebeliões feitas por aqueles aos quais a sociedade como um todo delegou armas que devem garantir-lhe a segurança. Ao se aquartelarem, numa jogada ensaiada com suas famílias, e deixarem de fazer o policiamento ostentivo, esses policiais estão traindo a sociedade que lhes paga os salários e lhes garante uma série de privilégios. Sim, privilégios, posto que corporações militares, até justamente, os têm em profusão.

Ao entregarem a população à própria sorte, os policiais militares capixabas deixaram explodir a violência em todas as cidades, com destaque para o número de homicídios, hoje superando, nos cinco dias de greve, o número de 90, contra quatro no mês de janeiro.

Condenável sob todos os aspectos, a reivindicação dos militares têm também suas razões, que devem ser apresentadas de maneira constitucional. Ontem, por exemplo, um movimento reivindicatório de policiais esteve em Brasília e, por meio de comissões, apresentou pacificamente suas postulações e assim não prejudicou nenhum cidadão.

Neste sentido, o governo estadual e o federal precisam imediatamente agir contra este  ovo da serpente e matar o risco de instabilidade no nascedouro. O uso das Forças Armadas é o caminho acertado a ser tomado.