Publicidade
Editorial

Documentos entregues aos poderes

19/04/2017 às 21:03
Show editorial0333

A marcha de mais de 900 indígenas nas ruas de Manaus e a entrega, ontem, de documentos na Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM), na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai-AM) mostra a necessidade  urgente de os governos reverem as políticas destinadas aos povos indígenas.

Leis ameaçadas e projetos legislativos que ferem direitos indígenas consagrados, educação e saúde indígenas que não contemplam as especificidades desses povos e, hoje estão em processo de desmonte são alguns dos eixos de luta dos movimentos indígenas. A 3ªMarcha da Resistência Indígena feita nesta cidade  enfrentou nessa cidade todas as dificuldades possíveis mas se estendeu por todo o dia com paradas demarcadoras nas sedes de instituições e órgãos que têm obrigações diretas com esses povos.

Também é um ato pedagógico para uma cidade que tem relação difícil, de quase ignorância, com seu passado e sua identidade indígena. A caminhada mostrou a importância da resistência, da disposição primeira para ouvir, dialogar, propor e firmar compromissos que os representantes indígenas esperavam ver honrados pelos governos. Igualmente apresenta em Manaus um pouco da vasta riqueza cultural da qual os indígenas são legítimos representantes. Entre os protestos, as palavras de ordem, a música, a dança e as pinturas combinavam os espaços para indicar o quanto a sociedade ocidental precisa conhecer e aprender.

O que querem os indígenas? Por que saíram ontem e sairão hoje em marcha na cidade de Manaus? Querem, numa primeira atitude, chamar atenção das autoridades constituídas para os dramas que estão vivendo, a precarização dos serviços básicos e o risco de perderem direitos. Vieram para formular propostas, ser ouvidos e questionar o porquê de formulações de leis, como a Proposta de Emenda à Constituição nº 215, a revisão de terras indígenas e de áreas de proteção ambiental e a pressão pela mineração em terras indígenas tornaram-se matérias prioritárias no Legislativo. Querem assegurar o direito de viver com dignidade e ter suas culturas respeitadas e valorizadas.

O descaso das autoridades, o distanciamento das políticas de governo da realidade dos povos indígenas e a combinação entre preconceito e discriminação criam um quadro crítico e amplia as barreiras reforçando as ameaças vestidas de boas iniciativas. Os indígenas, como afirmaram por várias vezes ontem, se declaram dispostos a seguir em frente, em luta, resistindo. Que esse movimentação enorme até chegarem em Manaus e percorrem as sedes dos poderes seja compreendida como disposição para ajudar a construir relações humanizadoras e de superação do racismo institucional.