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Editorial

Dom Paulo cardeal Arns

14/12/2016 às 22:08
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A ditadura militar, que muitas vivandeiras hoje ainda sentem saudades e não têm a vergonha de vir advogar a volta dela, foi um período triste da história brasileira que só foi superada com a força e liderança de brasileiros de todas as matizes ideológicas, mas nenhum foi tão grande neste trabalho de devolver a democracia ao povo brasileiro quanto o cardel-arcebispo emérito de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, um catarinense pequeno, voz pausada e que se fez gigante na propagação do evangelho e na opção preferencial pelos pobres feita pela igreja Católica na Conferência Episcopal de Medellin, Colômbia, em 1968.

Para seguir esta diretriz não titubeou, ao ser nomeado para chefiar a maior arquidiocese do maior país católico do mundo, em  vender o Palácio Episcopal e usar o dinheiro para disseminar mais de 100 centros comunitários nas periferias de São Paulo, onde floresceram as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) pregadas pelo Concílio Vaticano 2º.

Feito cardeal pelo papa Paulo 6º, dom Paulo enfrentou a ditadura como ninguém, sendo clássica e exemplar da coragem dele  uma conversa  com o ditador Emílio Garrastazu Medici que encerrou com os dois aos berros.

Nenhum preso político era deixado ao léu por dom Paulo e foi numa das visitas ao temido DOI-Codi que ele relatou as torturas cometidas contra os frades dominicanos frei Tito, que posteriormente cometeu suicídio por não aguentar as maldades feitas contra ele, e frei Beto. Foi  celebrante, ao lado do rabino Henry Sobel, do ecumênico que cobrava explicações para a morte, sob tortura, do jornalista Wladimir Herzog.

 Por fim, inspirado em Paulo 6º, criou a Comissão de Justiça e Paz e chamou para presidí-la o jurista Dalmo de Abreu Dallari, numa outra trincheira contra a odiosa ditadura brasileira.

Ao final da ditadura, publicou o livro “Brasil, Nunca Mais”, no qual reuniu documentos mostrando um raio-x das mortes cometidas pelos militares durante o período.

É claro que dom Paulo não estava sozinho nesta trincheira político-católica, havia ele próprio sido o sucessor e amigo  de dom Helder Câmara na missão de amar ao povo, conviveu na mesma luta com outros da mesma estatura, como o cardeal Aloisio Lorscheidter, o  primo deste, dom Ivo; dom Luciano Mendes de Almeida, todos marcados pela missão assumida em Medellin.