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Editorial

Efeitos do trauma após a rebelião

03/01/2017 às 22:23 - Atualizado em 03/01/2017 às 22:25
Show show familiares

O trauma provocado pela rebelião de presos em Manaus se estenderá em várias direções. Uma delas é o reforço a uma situação de pânico experimentada por moradores da cidade. Os pedidos de calma não surtem efeitos no imaginário da população vítima das mais diferentes formas de violência urbana. Todos que têm semelhanças com pessoas que estariam envolvidas nesse movimento passam a ser tratados com desconfiança  a partir de um entendimento mais geral de que pode ser um dos que estão foragidos. O resultado mais imediato são atos de descriminação e racismo nos mais diferentes lugares.

Outro dado é o medo de sair de casa e de ficar em casa. A população está atemorizada e redes sociais ajudam bastante a manter esse terror ao compartilharem em seus grupos boatos em série.

Há necessidade imediata de uma ação ampla capaz de ajudar o coletivo a sair dessa condição criada. A sociedade está doente de medo e em nome dele pode tomar atitudes perversas. Os governos, as instituições e os coletivos populares estão diante de um quadro crítico que pede intervenções bem elaboradas e com o maior número de alianças para alcançar êxito na construção de espaços coletivos que trabalhem positivamente o enfrentamento a esse pavor.   

Quanto à questão da segurança pública versus sistema prisional, os problemas são conhecidos nacional e internacionalmente. Os protocolos de enfrentamento estão postos. O que muda são as formas de executá-los, os acordos feitos. No Brasil, há problemas sérios quanto a conduta de enfrentar as causas e de estabelecer prevenções. A politização na pior acepção da expressão favoreceu os grupos narcotraficantes a se estabelecerem nas cidades com largo poder incluindo o eleitoral e, por sua vez, espraiando ações no Judiciário e no Executivo. Enquanto a espinha dorsal desse sistema não for quebrado e medidas efetivamente saneadoras realizadas situações como a que ocorreu em Manaus serão repetições de tragédias anunciadas e concretizadas.

Em poucos meses, essas tragédias serão “substituídas” por outras num ciclo repetitivo, por vezes com substituições de gestores como forma de responder às pressões populares sem atingir o âmago do problema. É um faz de conta que logo se revela. Espera-se que dessa vez, em Manaus os procedimentos sejam o de encarar essa rebelião e o saldo dela como muito grave, parte de um sistema falido e que reclama outras posturas dos governos.