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Editorial

Enquanto os desvalidos aguardam

10/05/2017 às 21:42 - Atualizado em 10/05/2017 às 21:46
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O que fazer quando o Outro é o miserável, o moribundo, o pedinte? Os países ricos do Primeiro Mundo têm sido hábeis em manejar instrumentos para lidar com esses outros. Na palavra da moda, fabricam muros. Na outra ponta, deixam a seleção por conta das travessias nas águas geladas. Os que sobreviverem irão se deparar com barreiras, alguns passarão, outros não. Serão os habitantes de acampamentos à espera do destino a ser dado às suas vidas.

No mundo mais pobre, os  argumentos são parecidos. Há consenso entre poderes e setores da população quanto a necessidade de impedir que os desvalidos atravessem e cheguem a um outro lugar. No Amazonas, haitianos e indígenas venezuelanos são parte daquelas populações recebidas pelo desejo de expulsão, de não querer ver e se aproximar. Entre outros efeitos, a colonização produziu esse que se mantém vigoroso nas diferentes camadas sociais.

Há semanas, indígenas Warao chegaram a Manaus. Peregrinaram muitos quilômetros, numa travessia igualmente perigosa, em busca de alimentos, de espaço e de vida. Estão sendo expulsos de suas terras tradicionais pela instabilidade política e a fragilização das leis de proteção. Aqui são mulheres, homens e crianças em situação de mendicância nas ruas da cidade, nos semáforos. Constrangem pelo drama que traduzem em seus olhares.

A cidade que ainda alimenta o sonho de ser Liverpool ou Paris dos Trópicos está atarantada com os visitantes. O que fazer para se ver livre deles o mais rápido possível tem sido a pergunta. Por que não o que podemos fazer para tornar menor esse sofrimento? Não é sem sentido que as autoridades federal, estadual e municipal demoram tanto em apresentar propostas sensatas para lidar com a situação.

É evidente que se trata de um problema. Que há impactos na rotina da cidade. Não se desconhece essa dimensão. A questão mostra o quanto os planejamentos e os gestores públicos têm demandas além daquelas tradicionais. O mundo globalizado exige mudança de postura e as crises nesse mundo pedem articulações mais ágeis e humanizadoras nas formas de convivência temporárias ou não com os outros em estado de exílio, por sinal, uma população que a cada dia cresce mais. A lentidão local na tomada de uma posição de atenção e salva guarda d essas pessoas é tão perversa quanto a situação a que estão sendo obrigados a viver.