Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
Editorial

Etnocentrismo


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28/11/2019 às 07:49

A diversidade indígena no Brasil, felizmente, ainda é gigante, apesar do brutal processo de extermínio e aculturação que vem ocorrendo nos últimos cinco séculos no País. Há, sem dúvida, indígenas que almejam a integração na sociedade não-índia, outros querem manter suas tradições respeitadas em meio à diversidade sociocultural brasileira, e há ainda muitos outros grupos que querem apenas ser deixados em paz. Grupos de índios isolados, que mantém intactos seu modo de vida, cultura, religião e tradições, têm o direito de permanecer assim. Ninguém, seja governo ou sociedade, tem o direito de ir até lá e lhes oferecer a “civilização”, um novo modelo de vida, uma nova religião, novos parâmetros. Não se sugere que sejam mantidos sob uma “redoma” ou simplesmente ignorados. O que se almeja é que tenham suas identidades culturais respeitadas e suas aspirações, compreendidas e atendidas pelo Estado.

Não se deve jamais tratar os índios como um grupo homogêneo, que tem os mesmos objetivos e necessidades. É um erro eleger porta-vozes indígenas e tomar seus discursos como representativos da totalidade dos povos índios. A abordagem rasa só tende a prejudicar os próprios indígenas. Outro aspecto que não deve ser esquecido é que muitos desses grupos são extremamente vulneráveis à ambição de garimpeiros, madeireiros, fazendeiros e vários grupos que se sentem legitimados pelo discurso oficial de que é salutar para o País “explorar as terras indígenas”.

O projeto de exploração em terras demarcadas precisa ser elaborado e conduzido com muito cuidado para resguardar os direitos e a segurança dos donos da terra, os indígenas. Isso só pode ser feito com muito diálogo e de forma participativa. Não é o que vem acontecendo, como o aumento dos conflitos entre índios e não-índios, principalmente na Amazônia, deixa bem claro. O fortalecimento desse diálogo entre Estado e povos indígenas passa pelo fortalecimento do órgão que tem essa missão, a Fundação Nacional do Índio (Funai). Os profissionais qualificados para perceber as nuances socioculturais e conduzir essa relação com as diversas etnias indígenas são os antropólogos e sociólogos. Reduzir o papel desses profissionais na política indigenista do País, como vem acontecendo, é cometer uma atrocidade imensa. A visão etnocêntrica em relação aos índios nunca foi uma ameaça tão presente.


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