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Editorial

Fé e trabalho

09/10/2016 às 21:57
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A fé sempre foi uma das principais características do povo brasileiro. Desde que a primeira missa foi celebrada logo após a chegada dos portugueses, a religiosidade tem sido marca importante da nossa cultura, um reflexo fiel de nossa história. Por isso, as religiões no País são tão diversas como o próprio povo nas diferentes regiões. Seja no catolicismo tradicional, nos cultos de inspiração africana ou nas diversas nuances das comunidades evangélicas e protestantes, a religiosidade permanece como uma das grandes armas do povo contra as adversidades, motivo de otimismo e razão para acreditar que dias melhores virão.

O Círio de Nazaré, que neste final de semana levou milhões às ruas de Belém e mobilizou pelo menos 4 mil em Manaus, é uma das mais populares manifestações religiosas do Brasil. Trata-se de uma prova inequívoca da força das tradições religiosas.No entanto, como já ressaltou o Papa Francisco em mais de uma ocasião,  fé sem trabalho não é fé. Pode até ser hipocrisia, mas nunca será fé.

Dizer que acredita em Deus, em Nossa Senhora de Nazaré, em Iemanjá ou em qualquer outra força do bem é muito fácil. Difícil é viver segundo ideais compatíveis com a fé. É preciso trabalhar em prol de ideais justos. Acompanhar a procissão sob o sol escaldante, e omitir bens à Receita Federal são atitudes incompatíveis. Como é incompatível ir à igreja todos os domingos e jogar lixo nos igarapés.

O crime ambiental, por si só, revela absoluta falta de respeito à natureza, à cidade e aos demais cidadãos. Orações não bastam para mudar o mal hábito cultivado há tantos anos. Todos os anos se repete a mesma situação: a vazante do rio revela um mar de lixo na orla dos igarapés. A população reclama e o poder público promove a limpeza. Toneladas de lixo são retiradas, deixando a orla de igarapés como Mestre Chico livres de sujeira. Muitos agradecem aos céus pelo novo aspecto do igarapé. Mas, imediatamente, voltam a jogar todo tipo de resíduos domésticos no corpo d'água. Quando as águas atingem seu nível máximo, a superfície já está coberta de lixo novamente.

O cenário revelado pela vazante ao longo do igarapé do Mestre Chico é entristecedor. Para mudar esse panorama, é preciso mais que um trabalho de conscientização. É necessário um planejamento integrado envolvendo poder público e sociedade civil organizada. Com fé e trabalho, podemos conseguir algum dia.