Publicidade
Editorial

Gringos fardados na Amazônia

27/09/2017 às 21:15 - Atualizado em 27/09/2017 às 21:19
Show eua

Em novembro, homens do Exército norte-americano participarão de exercícios  militares na Amazônia, na região da tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia). Terão livre acesso a uma das áreas mais estratégicas para o País por concentrar riquíssima biodiversidade e ser fonte de recursos hídricos e reservas minerais, algo que desperta a cobiça internacional desde sempre.  E o convite partiu do próprio governo brasileiro. A presença dos gringos fardados na Amazônia faz parte do projeto Amazonlog, exercício militar com foco em logística, inspirado numa atividade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizada em 2015, da qual o Brasil participou como observador.

A participação dos gringos já está causando cizanha dentro do Exército brasileiro. A polêmica reside no fato de que o País está abrindo as portas de forma sorridente ao exército de um país atualmente governado por um presidente de posturas, no mínimo, polêmicas e pouco dado à diplomacia. Quem pode confiar em Donald Trump, que aceitou de bom grado o convite feito pelo presidente brasileiro Michel Temer, denunciado por obstrução da justiça e participação em organização criminosa?

Militares da reserva, através de e-mails, manifestaram seu posicionamento; para eles, convidar as forças armadas dos Estados Unidos para exercícios militares na Amazônia é crime de lesa-Pátria. Será que estão exagerando?

É preciso avaliar com cuidado alguns aspectos. O primeiro é que desde a ascensão de Donald Trump à Casa Branca, os Estados Unidos têm adotado uma postura claramente belicista, não poupando afrontas a países latino-americanos como México e Venezuela.  Ontem mesmo o governo norte-americano anunciou que começou a construir oito protótipos de muro na fronteira com os mexicanos. Quanto à Venezuela, o país vizinho acaba de ser incluído na lista de nacionalidades com entrada restrita nos Estados Unidos. A justificativa é que o governo de Nicolás Maduro não estaria cooperando nas “verificações voltadas a identificar se seus cidadãos representam ameaças à segurança nacional ou pública". Ao abrir as portas aos gringos de farda, o Brasil sinaliza simpatia por tais posturas.

Mesmo em meio à crise política que parece não ter fim, o País ainda exerce uma posição de grande influência na América do Sul. É mesmo prudente permitir o acesso das forças norte-americanas? O Congresso Nacional poderia se manifestar, mas os deputados estão mais empenhados em barganhar o melhor preço para manter o mandato de Temer. Certos movimentos  poderiam organizar um debate se não estivessem ocupados fiscalizando exposições artísticas. O fato é que os gringos fardados vêm aí, e parece que ninguém – além dos militares da reserva – vê algum problema nisso.