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Editorial

Hanseníase: desmonte e ocultação perigosa

05/05/2018 às 17:26 - Atualizado em 05/05/2018 às 18:08
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Nos últimos dois meses, encontrar pessoas portadoras de hanseníase na condição de pedintes nos semáforos voltou a ser realidade. O dado carrega uma série de significados para além do agravamento nas condições de vida dessa população. A cena, comum nos anos entre o final da década de 1980 e na de 1990, parecia ter sido superada e os hansenianos estariam engajados em outras lutas para assegurar direitos e ampliar novas conquistas nesse longo processo de luta e de resistência.

O desmonte da pequena base de amparo e de início de uma ação política governamental de inclusão dessas pessoas à sociedade reflete-se nesse reaparecimento de pedintes. E na persistência da doença que, ocultada, permanece e avança. É o que trata matéria do caderno de Cidades deste domingo tendo por base pesquisa cientifica que identificou a prevalência de 11,68 casos de hanseníase para cada 10 mil habitantes em Manaus. Um número muito acima daquele registrado pelo Ministério da Saúde que estabelece a prevalência de 0,68 para cada 10 mil pessoas.

Os números fazem parte do “Perfil Clínico Epidemiológico da Hanseníase entre menores de 15 anos em Manaus”, resultado de quatro anos de pesquisa. A ocultação da realidade propiciou a fragilização de ações de prevenção e do tratamento. O estudo demonstra a necessidade de tomada de posição imediata com retomada das rotinas que possibilitaram no passado recente melhorar o controle da hanseníase. É preciso aprimorar os instrumentos de prevenção, retirar o assunto da ocultação a que foi submetido e reativar os espaços de tratamento adequado.

Outro aspecto é reconhecer que o problema existe e pede responsabilidade das partes tanto na admissão dele quanto nas condutas de enfrentamento. A pesquisa coloca informações importantes como um bem público para que de posse desses resultados medidas sejam tomadas e a realidade ora revelada seja enfrentada e superada. As populações da Amazônia e do Amazonas, em particular, já sofreram muito por anos de abandono, estigma, e segregação de pessoas doentes de hanseníase. Até agora, essas pessoas estão em luta para ter acesso a direito básico e muitos familiares (filhos, netos, irmãos) nesse momento lutam por Justiça. Querem saber quem foram seus pais, seus avós e outros parentes cuja convivência foi interrompida da forma mais violentada.