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Editorial

Hospício no Senado

28/08/2016 às 21:59
Show senado

Desde a última quinta-feira, o País vem acompanhando um dos episódios de maior relevância histórica na trajetória de nossa jovem democracia: o julgamento da presidente da República. Curiosamente, o ponto alto das sessões não é o depoimento das testemunhas, mas o comportamento dos senadores, tanto dos que apoiam o impeachment quanto dos defensores da presidente afastada. O que se vê é um retrato perfeito da classe política eleita pelos brasileiros. Talvez, a melhor definição para o que se passa no Senado Federal tenha sido expressada pelo próprio presidente da Casa, Renan Calheiros, ao mencionar que a sessão estava sendo conduzida em um “hospício”. É exatamente essa a impressão que temos. Os senadores estão conseguindo o enorme feito de superar a desenvoltura dos deputados federais quando avaliaram a admissibilidade do processo na Câmara.

É uma vergonha que algo tão sério, com implicações tão importantes seja tratado da forma que vem sendo, com sessões marcadas por ataques pessoais, xingamentos, gritaria e descontrole. Infelizmente, ainda pode piorar. E, provavelmente, vai. Hoje, é esperada a presença da presidente afastada Dilma Rousseff, que fará sua defesa pessoalmente perante os ilustres senadores. Um muro já foi erguido para separar militantes favoráveis e contrários ao impeachment. Talvez outro devesse ser instalado no plenário do Senado para ajudar a conter os ânimos. Isso sem falar no “show” de hipocrisia esperado para terça-feira, quando os parlamentares poderão se manifestar antes da votação final. Vão sobrar homenagens a Deus, à família e à decência.

Ainda há tempo para os senadores recuperarem alguma dignidade. Restam ainda dois dias de julgamento. Tempo suficiente para provar que, apesar do que se viu desde quinta-feira, os parlamentares conseguem comportar-se como pessoas racionais.

E tudo isso apenas para cumprir o rito. Independentemente de pedaladas, crime de responsabilidade, golpe ou contragolpe, a conjuntura que se estabeleceu no País com o afastamento de Dilma e interinidade de Michel Temer torna o retorno da petista muito improvável.

Chegou-se a um ponto em que uma nova troca de presidente, com estabelecimento de um novo grupo de ministros e um recomeço geral na estrutura da administração nacional seria prejudicial à nação. As cartas estão postas na mesa, à vista de todos. Isso explica, em parte, a atitude patética dos senadores. Não importa o que fizerem ou disserem. Não fará diferença no resultado.  O julgamento serve apenas para cumprir as etapas formais. Não é o mérito do processo que está em análise. Este será julgado pela história.