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Editorial

Ideias são à prova de balas

15/03/2018 às 21:00
Show marielle

O País ainda está chocado com o assassinato da vereadora Marielle Franco, morta a tiros no Rio de Janeiro, na última quarta-feira. A motivação para o assassinato não está clara, mas a atuação política de Marielle é uma das principais hipóteses. Recentemente, a vereadora havia assumido a relatoria da comissão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro responsável por monitorar a intervenção federal na Segurança Pública do estado.

Eram frequentes as denúncias que ela fazia contra a violência policial em comunidades dos morros cariocas, quilombos modernos onde se abrigam populações formadas preponderantemente por negros e pobres em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e pela violência.

A atuação de Marielle não se limitava a denunciar excessos da polícia. Ela defendia a elaboração de políticas públicas que favorecessem a educação, a qualificação profissional e condições para que os moradores, principalmente os jovens, tivessem esperança de levar uma vida melhor.

Ela mesma trilhou um caminho árduo, mas exitoso: nascida na favela da Maré, formou-se em Sociologia e tinha mestrado em Administração Pública. Foi eleita vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL com 46.502 votos e dedicava seu mandato à defesa dos direitos dos negros, moradores de favelas, mulheres e LGBTs. Sua atuação foi forte o bastante para ameaçar grupos específicos que preferem a manutenção do status quo. Sua voz foi calada na noite de quarta-feira com quatro tiros na cabeça.

Marielle se junta ao hall de mártires como Wladmir Herzog, Chico Mendes e Dorothy Stang, que em comum têm a luta destemida por minorias e pela defesa dos Direitos Humanos. O crime ocorre exatamente no momento que o governo federal tenta dar uma demonstração de força ao promover a intervenção no Rio, com uso das Forças Armadas e policiamento ostensivo nas favelas. Infelizmente, as milícias - organizações formadas por policiais que atuam ao arrepio da lei nas comunidades - são uma realidade no Rio de Janeiro e a participação desses grupos na morte de Marielle também não está descartada.

A sociedade - até mesmo a parcela dela que despreza os direitos humanos - precisa de uma resposta rápida em relação a esse crime. A morte de Marielle não pode ficar impune.