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Editorial

Massacre que não pode ser esquecido

28/08/2017 às 22:56 - Atualizado em 28/08/2017 às 22:58
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A partir da década de 70, o Estado brasileiro promoveu o extermínio do povo Waimiri-atroari. Em poucos anos, uma população de 3 mil índios foi reduzida a apenas 332 pessoas. Eles estiveram à beira da extinção. A matança ocorreu em função da construção da rodovia BR-174, que liga Manaus a Boa Vista (RR). Na época, o regime militar via apenas duas opções para lidar com a questão indígena: “pacificar”, que equivalia a torná-los bons cristãos, ou exterminar. Na visão dos generais, as populações indígenas eram apenas um obstáculo para o desenvolvimento que deveria ser removido.

 Toda a tragédia da nação Wamiri-atroari foi detalhada nos relatórios da Comissão da Verdade, que buscou dados oficiais que comprovam o genocídio perpetrado, principalmente ao longo da década de 80, e que resultou no assassinato de milhares de índios. O regime militar não era o único inimigo dos indígenas. Eles eram dizimados por garimpeiros, caçadores, pescadores e coletores de castanha, por epidemias de sarampo, malária, gripe e pela subnutrição. Os efeitos do contato com os não-índios foram terríveis.

Mas os Kinhá - como os Wamiri-atroari se autodenominam - lutaram e sobreviveram. Em 2003, a aldeia Iawará promoveu uma grande festa para celebrar o nascimento do milésimo-primeiro índio Waimiri-atroari, apenas um terço do que havia antes dos confrontos com os militares. O menino, chamado Iawyraky (lutador), simbolizava o fim da ameaça de extinção que rondou os Waimiri-atroari nas décadas anteriores.

 Agora, quatro décadas depois da “guerra”, o Ministério Público Federal (MPF) busca reparação pelos crimes cometidos contra os indígenas durante o regime militar. O órgão quer indenização de R$ 50 milhões para os indígenas, um pedido oficial de desculpas, e inclusão do massacre nos conteúdos escolares.

O MPF também pede medidas preventivas para resguardar o direito dos Waimiri-atroari de não serem surpreendidos por atividades militares realizadas em suas terras sem o seu consentimento. Em 2012, durante uma operação militar, oficiais da Marinha assumiram postura ofensiva contra os índios ao adentrarem terras indígenas. As medidas do MPF, se acatadas pela Justiça, serão o reconhecimento oficial de um dos maiores massacres de indígenas já ocorridos no País, algo que precisa ser lembrado para que nunca mais aconteça.