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Editorial

Mau exemplo faz escola

07/07/2018 às 17:25 - Atualizado em 07/07/2018 às 17:34
Show traf

Toda criança tem seus heróis, seus ídolos, pessoas a quem admira e que são suas referências. Infelizmente, no bairro Mauazinho, na Zona Leste de Manaus, essa posição é ocupada pelos chefes do tráfico local, admirados pelos menores por passar uma imagem de pessoas descoladas e bem-sucedidas. É como eles que os jovens estudantes sonham um dia se tornar, numa absurda inversão de valores. Até mesmo o linguajar, os trejeitos e “acessórios” como a tornozeleira eletrônica são copiados pelas crianças. 

Aos professores das escolas do bairro resta a impotência diante dessa realidade e a tristeza pela incerteza quanto ao futuro desses jovens. O que pode ser feito? Não há uma resposta simples. Esse cenário é o reflexo de uma série de fatores. Mas, certamente, uma das ações prioritárias é o combate ao tráfico, já que a impunidade dos traficantes é um problema crônico. Eles conseguem atuar livremente e usufruir dos recursos gerados pelo crime, passando uma imagem de prosperidade. O glamour do crime desapareceria se os criminosos estivessem cumprindo suas penas atrás das grades. 

Outro aspecto que não pode ser ignorado é a situação familiar dessas crianças. Muitos são filhos de presidiários, vivem em lares desestruturados, com pais alcoólatras ou  dependentes de outras drogas. Outros até já trabalham como aviões, sustentando os próprios pais por meio do ingresso precoce na criminalidade. São crianças em situação de risco que o Estado tem a obrigação de proteger. Mas, para isso, instituições como os conselhos tutelares e até mesmo as escolas teriam que contar com estrutura suficiente e adequada, além de pessoal para esse trabalho.  
O que se vê no Mauazinho  é completamente diferente disso: professores amedrontados ao perceber que sua autoridade não basta para que alunos retirem dos tornozelos os relógios que emulam tornozeleiras eletrônicas usadas por detentos; delegados tentando colocar panos quentes, lembrando que o problema não é só do bairro; alunos adolescentes que chegam pilotando suas próprias motocicletas adquiridas com o envolvimento no crime. 

É provável que a mesma situação se repita em todas os bairros dominados pelo tráfico em Manaus. Tudo parte de um panorama muito triste que, ao que tudo indica, vai perdurar ainda por muito tempo.