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Editorial

Meio século do mesmo: modelo Zona Franca de Manaus não mudou nada em 50 anos

25/02/2017 às 16:16 - Atualizado em 25/02/2017 às 16:19
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Há 50 anos, o governo federal criava um modelo de desenvolvimento baseado na exceção fiscal, com oferta de incentivos para atração de indústrias e desenvolvimento de um centro industrial que criasse empregos em uma das regiões mais remotas do País, a Amazônia. Essa estratégia de desenvolvimento estava em voga na época, com grandes empresas buscando expandir sua produção para além de suas próprias fronteiras como forma de chegar mais rapidamente aos mercados do mundo. Zonas francas se espalhavam da América do Norte à Ásia. Funcionou.

As empresas vieram, os empregos foram criados e Manaus voltou ao mapa do Brasil muito depois do ocaso da era de ouro da borracha. Também vieram problemas. Se por um lado, a concentração do desenvolvimento em Manaus também concentrou na capital os efeitos negativos do crescimento sem planejamento – favelização das periferias, desmatamento e subemprego -, por outro, também preservou a floresta no restante do Estado. Hoje, a preservação ambiental (fora da capital) é um dos principais argumentos dos defensores do modelo Zona Franca.

O fato é que se criou um modelo que se tornou o motor da economia do Estado. A atividade industrial gera arrecadação que sustenta o crescimento de Manaus, mantém universidades e gera recursos que, em tese, são aplicados no turismo e interiorização do desenvolvimento – embora os resultados nessas duas últimas áreas sejam altamente questionáveis. Toda uma elite manauara – de políticos e empresários - tem suas atividades sustentadas pela Zona Franca de Manaus. É muito cômodo simplesmente deixar o modelo como está. Mudar para quê se tudo vai bem para eles?

O problema é que nesses 50 anos, o modelo não mudou em praticamente nada. Mas o mundo mudou. Com a Zona Franca, o Amazonas conseguiu tempo e capital necessário para construir um modelo de desenvolvimento genuíno, que não dependesse de incentivos fiscais que são, por essência, temporários. A prorrogação da vigência dos incentivos fiscais por mais 50 anos deve ser vista como oportunidade para mudar, evoluir.

Mas a mudança não interessa a muita gente. É por isso que o Centro de Biotecnologia da Amazônia, 15 anos após sua inauguração, continua uma “anta branca” no meio da floresta, caminhando de forma desengonçada e lentamente. O Amazonas precisa ter a coragem para mudar. E isso não significa abandonar a indústria, mas aprimorá-la, fazê-la crescer a partir das riquezas do Estado, produzindo itens exclusivos em setores como alimentos, fármacos e cosméticos. Temos mais meio século para isso.