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Editorial

Mortes e letargia governamental

01/05/2017 às 19:15
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Para além da Lava Jato o Brasil volta a ocupar o noticiário internacional por um perverso procedimento: a matança de trabalhadores sem terra e de indígenas. As emboscadas, os confrontos e os assassinatos ocorrem em ordem crescente e o que se constata é a dificuldade das autoridades em dar um basta. Há uma conduta patética dos setores de Justiça do Governo Federal e declarações que mais produzem a revolta do que algum nível de crença de que seriamente providências estão sendo tomadas.

A sensação é de impunidade incentivada. Por isso, é perverso e igualmente criminoso. No dia 20 de abril, nove trabalhadores rurais foram mortos na gleba Taquaruçu do Norte, zona rural do município de Colniza (Mato Grosso). Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2016, foram assassinados 61 agricultores, o maior número de mortes desde 2003. Este ano, em quatro meses, já são dez assassinatos.

Ontem, dez índios do povo Gamela, que vivem em Viana (Maranhão) foram agredidos e feridos gravemente a tiros e, dois deles, tiveram as mãos decepadas. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informa que houve incitação de ataque aos índios, convocada por emissora de rádio.

Relatório do Cimi sobre a violência contra os povos indígenas registra o assassinato de 137 indígenas em 2015, 138 em 2014; e 53 em 2013. Fora as mortes, os ataques aos indígenas prosseguem desde o entorno do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional, como se assistiu há poucos dias durante a Marcha da Resistência Indígena em Brasília.

A lentidão, a tentativa oficial de desviar atenção para essas mortes, e a falta de esclarecimento adequado sobre os responsáveis somam-se as declarações de ministros, como o da Justiça, para compor o clima de “deixar o confronto acontecer”.  A hostilidade passou a ser uma das referências desse tempo e, no caso dos trabalhadores sem terra e dos indígenas, reforça uma das marcas da sociedade brasileira que a de não aceitação desses Outros brasileiros. O que ocorreu até então foram massacres e dosagens pequenas de tolerância jamais de respeito. A discriminação e o racismo permanecem vivos e, na atualidade, tornaram-se condutas públicas colocadas com ares de naturalidade. É um momento crucial que pode ampliar o cenário de tragédia.