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Editorial

Mortes sem repostas

15/04/2018 às 15:02 - Atualizado em 15/04/2018 às 15:48
Show editorial segunda

A intervenção militar no Rio de Janeiro completa nesta segunda-feira dois meses. Apresenta como resultado desse período a forma atabalhoada com que o Governo de Michel Temer tratou o pedido feito pelo governador do Estado, Luiz Fernando Pezão, e resultados questionáveis da operação quando colocada como resposta à violência.

Algumas questões emergem e pedem respostas da sociedade civil. É a primeira vez, desde a edição da Constituição de 1988, que um Estado sofre intervenção militar sem a participação em parceria com o governo estadual e municipal. No caso do Rio de Janeiro, as duas esferas de poder executivo ficaram à margem; uma das indicações feitas pelo Comando Militar Leste no início da ação é que o Rio de Janeiro seria uma espécie de laboratório, o que deixa entendido um desejo de avançar com medidas intervencionistas do gênero em outros Estados do País; Os assassinatos, na cidade do Rio de Janeiro, se espalham, sem respostas.

Faz um mês que a vereadora do Psol, Marielle Franco, e o motorista que prestava serviço à parlamentar, Anderson Gomes, foram mortos numa emboscada sem que até agora as investigações tenham avançado para apresentar os responsáveis. Diogo Bernardo Alcântara, enterrado ontem, é o 36º policial militar morto; inúmeras crianças e jovens mortos por tiros disparados em confrontos aumentam o número de vítimas na lista da violência.

Os mecanismos utilizados pelo Governo Federal para enfrentar a situação desmoronam. Entre o que necessita ser feito, em ação que não se resolve de imediato, e o que está sendo realizado, talvez por indução de um marketing direcionado à busca desesperada pela popularidade presidencial, está exposto o abismo em que o Governo de Michel Temer se envolve e no qual decidiu atuar, inclusive com pretensão de ser candidato à reeleição este ano.

Nesse cenário, o laboratório pretendido no Rio de Janeiro deve ser visto como uma proposta a ser rechaçada pelos representantes dos poderes executivo, legislativo e judiciário dos demais Estados brasileiros. Não estão sendo consideradas questões fundamentais ao processo de enfrentamento da violência que passam pela credibilidade institucional, fomentos de parcerias amplas, transparência e determinação política de instaurar um processo legal, justo e criativo. A intervenção está sendo atropelada pelo desejo incontrolável de um presidente que quer ser pop e faz, nessa atuação, vítimas diárias.