Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
Editorial

Não à banalização da morte


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10/08/2020 às 08:29

Mais de cem mil vidas já se foram no Brasil por conta da pandemia do novo coronavírus, sendo mais de 3.350 no Amazonas. A triste marca foi alcançada neste final de semana, mas seu impacto na sociedade revela algo estranho e até bizarro que deve ser objeto de estudo neste ano e nos próximos. Ao que parece, quando a tragédia é grande demais, surge uma absurda reação multifacetada, uma tendência à relativização, à negação e mesmo à banalização da morte. A marca de cem mil mortos passou um tanto quando despercebida no seio da população, não fosse pelos informes da imprensa. É possível que, quando a tragédia é localizada, afetando duramente apenas uma comunidade específica, a comoção resultante seja mais abrangente que em relação a algo tão amplo como a atual crise sanitária.

Mais de cem mil se foram e não há luto oficial, as bandeiras não estão a meio mastro, não há homenagens de vulto, e a dor limita-se aos familiares e amigos numerosas vítimas da maior tragédia da história do País e uma das maiores do mundo.

Muitas críticas poderiam ser direcionadas ao poder público em todas as suas esferas, especialmente na federal, que tem inafastável parcela de responsabilidade sobre a situação atual do País em meio à pandemia. Causa revolta entre as pessoas de bom senso a postura inerte do governo federal, sobretudo no que diz respeito à pessoa do presidente da República na condução da crise, inicialmente negacionista, depois relativista, mas sempre insensível à gravidade da situação no País.

Mas também não se pode ignorar a postura da própria população brasileira. A pandemia revelou facetas cruéis, individualistas e de ausência generalizada de empatia e mesmo de humanidade. Mais de cem mil se foram, mas se considerarmos apenas Manaus e excluirmos os que perderam parentes e amigos, quem realmente se importa? Quem realmente lamenta pelos que partiram, mantendo um luto interno e uma atitude de respeito tanto pelos que se foram quanto pelos que sofrem as perdas irreparáveis? Certamente, não os que lotam a praia da Ponta Negra, ou os shoppings centers, ou as lojas do Centro.

Perdemos mais de cem mil vidas, mas jamais podemos perder a capacidade de nos importar, de perceber a dor do próximo e de manter o espírito solidário que nos torna humanos.

Foto: Sandro Pereira
 


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