Publicidade
Editorial

Nem direita nem esquerda

10/01/2019 às 08:50
Show bolsonaro 22cb8755 c3b9 49e6 8d07 9c1ec546bff3

O esforço do atual governo federal em “purificar” o País de qualquer traço que se identifique com as pautas ditas “esquerdistas” pode levar a equívocos e desgastes desnecessários. O Brasil é muito maior que as orientações políticas de qualquer tipo. E quando o assunto é educação, é o bom senso que deve prevalecer. Temas como a violência - contra a mulher ou qualquer de suas manifestações -, e a história das comunidades quilombolas, entre tantos outros, não podem ser retirados dos livros escolares com o argumento de serem ligados a esta ou àquela orientação política.

A inclusão ou exclusão de conteúdos dos livros deve ser definida por critérios puramente técnico-pedagógicos, de acordo com um programa educacional sólido e coeso. E esse material deve estar ancorado em rigorosa pesquisa e produção acadêmica, o que deve ser atestado com a indicação da bibliografia utilizada em sua confecção. Esses requisitos estavam ausentes em edital do Ministério da Educação para compra de livros escolares. O documento sofreu mudanças que retiravam a exigência de retratar a diversidade étnica e o compromisso com ações de não violência contra a mulher, entre outras alterações.

Felizmente, a atual gestão na esfera federal tem se mostrado flexível a críticas positivas. Ontem, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, decidiu tornar sem efeito as alterações no mínimo questionáveis, como a retirada da exigência de que as obras não tivessem erros de revisão ou de impressão e que os livros não apresentassem propaganda de marcas, produtos ou serviços comerciais. O governo agiu rápido diante da polêmica que se instalou com a divulgação do referido edital, evitando embates com educadores e especialistas, mas a situação poderia ser evitada com um pouco mais de atenção e até de bom senso.

É compreensível a preocupação do governo em promover uma educação “livre de ideologias”, mas esta é uma questão que precisa ser muito bem debatida. Afinal, a ideologia, em seu sentido amplo, está presente em muitos aspectos da vida. Tanto que tentar excluir uma carga ideológica é também agir ideologicamente. A discussão deve se ater ao que é útil ou não à formação das crianças, independentemente de rótulos ideológicos e dando prioridade aos critérios pedagógicos eficazes.