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Editorial

Os governos e as fronteiras da Amazônia

27/01/2017 às 21:45
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São procedentes, necessárias e oportunas as críticas e recomendações feitas por estudiosos e ativistas sobre a proposta de fechamento das fronteiras na Amazônia. Reducionista e repetitiva, a ideia de fechamento embalou muitos planos de intervenção governamental nas fronteiras amazônicas, foi  utilizada como pólvora para incendiar discursos de mudança e  como mecanismos de arrecadação e manejo de  verbas.

O que mudou? Nada. Os problemas nas fronteiras e que servem para mostrar as fronteiras como obstáculo são relatados  há muitas décadas. O que se constata é a série de políticas fracassadas dos sucessivos governos para a Amazônia. Essa de agora é repetição grosseira e atabalhoada replicando o mesmo selo da pressa e da falta de percepção de uma proposta mais coerente e avançada para tratar de questões relacionadas a insegurança, às rebeliões e fugas nos presídios brasileiros.

É lamentável que os governos dos estados amazônicos aceitem a manutenção de tal conduta. Talvez, para efeito mais geral, na perspectiva de gerar a sensação no âmbito dos centros urbanos de que algo está sendo feito, esse tipo de plano anunciado funcione. Mas terá curto tempo de vida porque não trata em profundidade  uma situação séria que não terá solução com posturas  do tipo das anunciadas.

A Amazônia é região continental, requer governos atenciosos e com enorme disposição para dialogar com os países que a compõem. Os governos centrais do Brasil, na maioria das vezes, se negam ao diálogo, adotam uma postura colonizadora e imputam de forma grosseira, agressiva e discriminatória aos povos dos outros países a responsabilidade pela existência de  problemas relacionados ao narcotráfico, à  formação de milícias e à expansão da violência. O Plano Nacional de Segurança há poucos dias lançado é uma  expressão dessa conduta. São ações que mais promovem a violência, incentivam o armamento, os conflitos e o estremecimento das relações bilaterais.

Como é possível numa região com as características da Amazônia fronteiras serem fechadas? Por que insistir nessa ficção quando o caminho aponta para outros exercícios de construção de espaços interfronteiriços mutuamente gerenciados. Na Amazônia brasileira, os territórios de fronteiras são lugares de abandono, da repetida omissão governamental e vistos por governos locais como fardo que devem carregar. Ignoram que nesses municípios vivem milhares de pessoas portadoras de direitos até então não atendidos e não reconhecidos.