Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020
Editorial

Os mortos não importam


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05/07/2020 às 08:16

A briga entre governo federal, governadores e prefeitos, e do governo com a sociedade pelo não uso da máscara retrata em boa medida o entendimento mais geral sobre política pública em saúde e a importância da saúde na vida das pessoas. É reduzido e, pior, nesta pandemia, virou disputa política, numa demonstração do tamanho do atraso para o qual o Brasil é empurrado em ritmo veloz.

O uso da máscara, ao sair de casa, como uma das medidas de proteção parecia óbvio. Não é. O acessório, após a onda de modismo sobre marcas e modelos, está sendo abandonado na maioria das cidades brasileiras por diferentes segmentos sociais, dos letrados aos não letrados, entre ricos e pobres. Uma condição parece igualar alguns milhares de brasileiros que tripudiam da exigência de usar a máscara e retomaram, na condição anterior, o lazer.

Enquanto a taxa de contaminados e de mortos avança em números expressivos, uma parcela dos brasileiros se diverte abusivamente como se nada grave estivesse ocorrendo. O país testa o sentimento de solidariedade com a dor de mais de 60 mil famílias que perderam pessoas para o covid-19. É um dado para ser pensado porque expõe um posicionamento da população que reforça o individualismo e o egoísmo na máxima do “cada um por si”. Para além da pandemia, o comportamento dessa porção de brasileiros precisa ser percebido em suas vinculações com setores do poder, como o executivo e o legislativo, o êxito e o fracasso de políticas criadas para assegurar direitos fundamentais, fortalecer a ideia de que a política não é o lugar de corruptos e que o combate à corrupção é uma necessidade legal para fazer funcionar melhor e mais saudável as estruturas da gestão pública.  

O pouco valor dado à legislação, aos pactos públicos firmados entre poderes e destes com a sociedade, e a naturalização do avanço dos negócios privados sobre a vida pública agregam-se a um modo de ser do Brasil. É um passo para trás perigoso. Milhões de brasileiros deste país travaram lutas longas e dolorosas para que a democracia se tornasse alcançável e fosse protegida como valor maior. A educação, pensada como investimento na melhoria da qualidade da pessoa humana, é um caminho ao enfrentamento da banalização da vida do outro. Mas, a educação, no Brasil, vive o auge de uma crise sem precedentes nas últimas décadas.      

Foto: Junio Lima


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