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Editorial

Os móveis da ALE e a distância do parlamento

26/03/2017 às 19:01 - Atualizado em 26/03/2017 às 19:02
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Os mais de 300 móveis ociosos da Assembleia Legislativa do Amazonas demonstram um dos aspectos da política, do poder e do parlamento. A distância do Legislativo da realidade brasileira e, nesse caso, da amazonense. Em tempos de crise, como a ALE-AM acumulou tamanha quantidade de móveis e qual a necessidade de novas cadeiras, mesas e TVs? Por que demorou tanto tempo para fazer um processo de possível transferência dos bens?

O Legislativo brasileiro vive numa espécie de bolha de onde seus componentes saem por algum período para dar uma volta e para ela retornam. É um dos que custa mais alto à sociedade quando na comparação com o preço pago por outros parlamentos no mundo. Eleitos por uma maioria de eleitores economicamente medianos e pobres, os parlamentares passam a viver em pouco tempo numa espécie de ilha da fantasia, com vastos recursos para cobrir inúmeras despesas, contratar um grande número de assessores e dispor de serviços em várias áreas.

Teriam como contrapartida constitucional trabalhar para garantir a elaboração e o funcionando de leis que atendam aos interesses da população, inspecionar a atuação do executivo e cobrar o cumprimento daquilo que é lei. O distanciamento da responsabilidade e da ética legislativa faz com que as necessidades sociais sejam ignoradas para dar lugar ao atendimento de interesses mais restritos. O resultado dessa prática é uma atividade político-parlamentar atrofiada, desvinculada da sua função precípua e habituada a um padrão de riqueza e de mordomias que ironizam o sofrimento da maioria dos eleitores e das populações.

Acumular a lista enorme de bens móveis, além de prédios, terrenos e outros, revela o gosto pela ostentação indevida e o tamanho da dificuldade que o Legislativo brasileiro nacional, estadual e local terá para ser enquadrado em um padrão adequado, normal e em sintonia com o retrato mais próximo da sociedade. Somente pela pressão da população a partir da apropriação por essa mesma população de como deve ser o legislativo será possível fazer a mudança adequada. Caberá aos eleitores impor outro tipo de contrato para com os candidatos ou então o distanciamento do legislativo de suas atribuições permanecerá como natural. O que agravará a situação do País e a demora na resolução de problemas graves e antigos que já deveriam ter sido superados, porém permanecem e são aprofundados como se houvesse incapacidade geral para solucioná-los.