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Editorial

Os outros eixos da corrupção

17/03/2017 às 22:42
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A conexão da roubalheira feita em dependências hospitalares e unidades básicas de saúde com o esquema de corrupção do País é uma dos aspectos da conduta sistêmica de apropriação indevida dos bens públicos. Em áreas essenciais, como o é a da saúde, o desvio de recursos financeiros e de produtos representa em muitos casos a morte de centenas de pessoas que por falta desses são impedidas de ter atenção médica adequada.

Uma rede que envolve os diferentes profissionais da saúde atua há muito tempo em esquemas cada vez mais organizados e ágeis para usurpar medicamentos, equipamentos, material acessório. O mais deplorável é que na maioria dos casos que se tornam públicos a participação do servidor é confirmada. Ou seja, aqueles que deveriam ser os primeiros a zelarem pela manutenção adequada e a conduta ética nesses espaços tornam-se instrumentos estratégicos para manter os negócios criminosos.

O pior exemplo aos mais jovens, na atualidade, é a noção de que se apropriar dos bens públicos é normal. Políticos com atuação no parlamento, gestores públicos e parcela de servidores têm desenvolvido esse valor como referência de enriquecimento rápido, acesso e manutenção de poder e de privilégios sob a tutela da falta de transparência e do cumprimento da legislação que assegura acesso às informações públicas. Fatia expressiva dos órgãos públicos ainda é dirigida por pessoas protegidas para manter o veto e a dificuldade de acesso ao cidadão no que diz respeito à informação e ao esclarecimento dela. São verdadeiros labirintos burocráticos que exigem, para vencê-los, dispor de tempo, de equipamentos e de conhecimento técnico específico para desvendar o que está posto.

Ações firmes podem mudar essa realidade. De um lado, as investigações e a punição justa dos responsáveis por tais crimes. De outro, investir numa educação que restaure a dimensão ética da conduta pública e de permanente valorização do funcionalismo a fim de vencer a aparente e gradativa perda de caráter da pessoa. É fundamental que o setor privado, as organizações representativas dos profissionais públicos sejam envolvidas nessas ações que devem ter permanência, vigor, liberdade e responsabilidade para serem realizadas. O processo é longo e necessário para reinstituir as condutas adequadas nessa relação. Enfrentar todo dia e mobilizar para o enfrentamento é a saída.