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Editorial

Preconceito enraizado

20/11/2017 às 21:36 - Atualizado em 20/11/2017 às 21:38
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Preconceito é algo difícil de se definir, embora não pareça. Isso porque, além das manifestações acintosas que vez por outra ganham espaço nos noticiários – como torcedores atirando bananas ao gramado e coisas do tipo -, há outras demonstrações menos dramáticas, mais simples e que, de tão rotineiras, às vezes nem mais causam indignação. Os negros são alvo disso com muita frequência. Não se trata apenas de escorregões nas palavras em conversas triviais, como ocorreu recentemente com um jornalista famoso.

É comum que a pessoa não faça por mal ou porque seja mal intencionada, pelo contrário, a intenção pode até ser de lançar um elogio: “Ela é negra, mas é bonita...”, “É um negro muito talentoso...” e coisas do tipo.  Frases assim, mesmo que não ditas, refletem a convicção pessoal de grande parte da população: a de que os negros – em outros casos, os nortistas, os gays, as mulheres...  – seriam pessoas de menor capacidade ou menos dignas de respeito e consideração.

No caso dos negros, esse preconceito está enraizado no tecido social do Brasil. É marcante o fato de que as favelas e periferias de qualquer grande cidade abrigam uma população principalmente negra. Também são os principais alvos da violência. O Atlas da violência 2017 não deixa dúvidas. O estudo mostra que, entre 2005 e 2015, houve um aumento de 18% na taxa de homicídios de negros, enquanto os assassinatos de não negros diminuíram 12%.

O Brasil continua sendo um país racista. É verdade que mais da metade da população brasileira, 53% para ser mais exato, é formada por negros; mas se considerarmos apenas a população carcerária, a proporção de  negros é bem maior: 67%. Por que os negros são maioria absoluta nas prisões? Teriam inclinação natural ao crime? Certamente que não. A situação atual dos negros no Brasil é resultado de um processo histórico que já estava em andamento desde muito antes da chegada de Cabral. É preciso reconhecer que, ao longo de toda a história do País, sempre foi relegado aos negros um papel marginal, e que, mesmo após a abolição da escravatura, eles continuaram sendo vistos dessa forma marginal, como pessoas de segunda categoria.

Por isso é preciso desenvolver políticas públicas adequadas, voltadas ao equilíbrio de oportunidades para a população negra. Um exemplo que merece aplausos é o programa do Instituto Rio Branco, que proporciona condições para que jovens negros sem recursos possam estudar e se preparar para os concursos que selecionam os diplomatas brasileiros. Mais que isso, é preciso que o papel do negro em nossa história seja tema bastante discutido nas escolas, para que os adultos do futuro próximo tenham maior consciência de suas próprias origens.